Inclusão

Por: Maria Luiza Salomão

Nos meus tempos de juventude “revolucionária” a gente definia Política como um compromisso da pessoa com o seu entorno social importava a forma de relação com os empregados, com os menos favorecidos, com a família, com o ser amado e os amigos. “Ser Político” era ser integralmente humano, junto a outros seres humanos. Não há ser humano isolado. Nossa existência está inserida em uma rede de relações, de ideais, em afetos e crenças, em costumes e criações compartilhados, na arte. Todas estas relações constituem a nossa Cultura. Manifestos, ações (na minha época de jovem) contra a ditadura, a organização em grupos ideológicos visando uma transformação social, eram manifestações da política (o jovem não queria ser xingado de alienado - sinal de pouca cultura na minha época, de ausência de Ideais). Ser político era mais do que ter militância ideológica, era (ainda me é) o que refletia o meu ser no mundo.

Recebi honrada e com prazer, o convite do SENAC, para falar sobre o tema da Inclusão. Fiquei ciente do trabalho, dedicado e delicado, relacionado ao tema da inclusão de funcionários, aprendizes, pessoas com deficiências físicas (cadeirantes, surdos, cegos ou com deficiências intelectuais). Dá para imaginar o esforço que exige de todos, desde os “incluídos” como dos que buscam a inclusão, já que sabemos que as pessoas têm ideologias, crenças pessoais e coletivas diferentes, o que exige intenso e contínuo trabalho psíquico (contra o preconceito, a negação, etc.).

Os jovens da minha geração sentiam-se desejosos de compartilhar um ideal, de estar incluído em um projeto social. As “palavras de ordem revolucionárias” eram tremendamente abstratas “mudar o mundo”, o “comportamento sexual”, “acabar com as desigualdades econômicas”.

As transformações culturais, no entanto, são lentas. Aparentemente, as palavras de ordem revolucionárias da minha juventude se materializaram. Na internet, a comunicação rápida e eficiente é mais veloz que o pensamento, total liberdade de expressão. Estamos em uma democracia, com uma presidente, guerrilheira no passado, hoje incluída na sociedade.

Mas a cultura se substancializa concretamente no interior de pessoas de carne e osso. O que ainda é preciso transformar no universo social, na mentalidade, nas normas? Quanto há de esforço intersubjetivo para que o deficiente se integre ao universo íntimo das pessoas do seu convívio?

Inclusão, substantivo abstrato, demanda trabalho psíquico para incorporar a presença de seres que nos exigem, continuamente, novas formas de relação com o desigual, com o diferente. Incluir as pessoas com deficiência demanda ir contra a corrente de uma cultura contemporânea que visa lucros, produtividade, que vê o ser humano como instrumento, coisa, número. No horizonte dos dois universos (paralelos, tangenciais), o social e o íntimo, como nos situamos - seres humanos incluídos na cadeia da humanidade? Quem suporta ser excluído do Humano sendo uma coisa, uma peça descartável? Como me incluir e ao outro no humano olhar?

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