Bolhas

Por: Eny Miranda

Como o cérebro humano costuma desconhecer limites, sejam eles impostos pela ficção ou pela vida, ao ler, no último sábado, a resenha assinada por Maria Luiza Salomão, meus pensamentos viajaram no tempo, cruzaram espaços e me levaram a outra situação limítrofe entre o real e o imaginário, esta, por mim vivenciada.

Tinha eu três ou quatro anos de idade e já me exercitava na criação de personagens fictícios (ou quase fictícios): gostava de fazer bolhas e de apreciá-las - esféricos símbolos de beleza e fragilidade, mito e realidade; ícones de real intocabilidade.

À tarde, depois do banho, era hora de geração e sonho acontecerem.

Canudo e canequinha nas mãos, eu me sentava no pequeno degrau do “canteiro grande”, no centro do jardim. O canudo correspondia a um segmento da haste que une a folha ao tronco do mamoeiro. Na canequinha, água com raspas de sabão. Nela eu mergulhava uma extremidade do canudinho. Depois, retirava-o e soprava sua outra extremidade. O ar, passando pela luz do tubo, chegava à mistura colhida na canequinha, insuflando-lhe vida.

Então, elas nasciam - as bolhas. Desprendiam-se, ganhavam o espaço, leves e frágeis, em coreografias traçadas pela suavidade da brisa. E se distanciavam. Às cores do sol poente, reluziam azul, ouro, ocre, coral, ferrugem... Belíssimas! Por fim, a um leve toque, a um mero suspiro da tarde, rompiam-se, desfaziam-se em gotículas de água, liberando a aérea alma.

Eu as queria assim, livres, ao sabor das cores e do vento e, ao mesmo tempo, desejava tê-las comigo, ansiava por guardar aqueles íntimos e estranhos seres animados pelo meu sopro.

À noite, costumava sonhar com elas, as vítreas bolhas, que já se mostravam sonho mesmo nos momentos de vigília - os meus Harold(s), personagens originados de ar e em ar desfeitos (não por minha vontade. Não as queria mortas mas vivíssimas, eternas, se possível). Sonhava que se faziam tangíveis, passíveis de cuidadosos toques, de explorações minuciosas e longos olhares maravilhados, ao contrário do que ocorria na realidade: tais criaturas, nascidas em especiais momentos de poder e submissão, posse e perda, geração e morte, eram e não eram, existiam e não existiam, pois não se deixavam tocar, sob pena de desaparecerem, mesmo a um pequeno gesto, a um sopro, a um descuido do ar. Eu as gerava, segundo a minha vontade, mas não podia tê-las: fabulosas, míticas, caprichosas, deléveis.

Se Harold, para Marc Foster, era ficção dentro da ficção, aquelas bolhas eram, para mim, ficção dentro da realidade.

Eis que, uma tarde, papai me faz uma surpresa: chega-me com um largo sorriso nos lábios e uma pequena caixa nas mãos. Não era Natal, nem dia de aniversário. Por que, então, o presente? O que haveria naquela caixa?

Abro-a com o coração desabalado, saindo do peito. Nela, nada de bonecas ou panelinhas, mas outro mistério: três bisnagas e um canudinho plástico. Cada bisnaga contendo uma espécie de creme, de pasta de uma só cor. Três tubos, três cores, as fundamentais: amarelo, azul e vermelho.

Meus olhos buscam em papai uma resposta para aquilo.

Ele então mistura um pouquinho das pastas coloridas, põe uma pitadinha da mistura numa ponta do canudinho e pede que eu sopre a outra ponta.

Aí, algo extraordinário começa a acontecer. O que sempre me parecera sonho surge, no mundo real, bem à minha frente: uma bolha colorida vai brotando na extremidade do canudo, crescendo, crescendo, até se desprender, leve, brilhante e... alcançável, tocável, durável. Então eu poderia pegá-la e guardá-la comigo?!! Era algo “mais estranho que a ficção”. Era o meu sonho - nas oportunas palavras de Maria Luiza - “com sentido”, o meu Harold “encarnado”.

Os anos se passaram e duvidei de que aquilo, algum dia, tivesse realmente acontecido.

Hoje, lembro-me de Clarice Lispector, também citada na resenha: “só em símbolos a verdade caberia, só em símbolos é que a receberiam”, e da conclusão da resenhista: “O herói morre várias vezes em uma só vida, mas as suas histórias podem ser eternas”.

Então, creio.

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