Magia e golpe

Por: Everton de Paula

Tinha 19 anos. Lembrava-me com exatidão, pois com ela iniciara o trabalho de revisor no jornal de Alfredo Costa. O cheiro de chumbo derretido das máquinas de linotipo misturado ao da tinta que se esparramava com o rolo sobre a página de letras invertidas fixou-se nas minhas entranhas.

Hoje, quando penso nessa idade e nas coisas que ela proporcionava, reflito sobre as débeis forças que tentam ordenar as vontades de um jovem; em vão! A carne fresca e vigorosa do moço, sempre exigindo um complemento feminino. O frêmito do desejo, mãos inquietas, turbulência de ações e gestos... Nenhum cansaço, nenhum incômodo, nenhuma dor latente, nenhum arrependimento. Apenas o fazer, o agora, o atendimento incondicional aos apelos dos sentidos. Dá o que pensar: quando alguém diz algo parecido a “no meu tempo era melhor”, no fundo ele não está se referindo ao tempo propriamente dito, mas expressando a saudade de sua juventude. Não muito mais que isto.

Acabara de jantar. Lá fora a brisa morna de fim de primavera transportava o tom róseo-violeta do crepúsculo, tingindo as paredes caiadas do quarteirão. Lancei-me à rua, ao inesgotável campo de aventuras. Sexta-feira? Provável. Apenas a certeza do momento, pontuando uma lua cheia, exuberante de beleza, mistério e convite.

Meus pés levavam-me ao indefinido, embora tivesse a certeza de que A... me esperasse. Ainda havia tempo.

Em poucos minutos, encontrava-me numa praça de parcos canteiros e bancos. Ali estavam armadas algumas tendas em voile branco, transparente, balançando ao sabor do vento. Tentei observar melhor, mas não conseguia divisar nenhuma indicação do que eram, ou de quem estava ali dentro fazendo o quê. Pelo pouco movimento das pessoas, não sugeria nada que se parecesse a pequenos e reservados espetáculos de ilusionismo, malabarismo, adivinhações. Algumas mesas toscas de madeira ostentavam o brilho de miudezas trabalhadas em cobre, e laços, fitas, tachos, pequenas adagas, jarros...

Ao falar da idade jovem e suas características, esqueci-me de enumerar uma: a curiosidade.

Dirigi-me à entrada de uma das tendas. Ainda de fora, pude sentir um inebriante perfume amadeirado. Silêncio e brisa. Lua cheia e convite. Não resisti... Entrei.

A tênue luz que reinava dentro da barraca não me permitia divisar com nitidez a figura humana que se punha sentada sobre os calcanhares. Somente após algum breve momento, meus olhos acostumaram-se à penumbra e aí, sim, vi, à minha frente, talvez a mais bela cigana de todas as poucas que conhecera na vida. A moça pediu-me delicadamente que retirasse os sapatos e me acomodasse sobre o tapete, que forrava quase por completo o chão de terra e grama. Impossível não atender àquele pedido, impossível não se render àquele momento que se construíra tão rapidamente, e que tão rapidamente me transtornava.

Dada a exiguidade do espaço, dobrei os joelhos e sentei-me sobre os calcanhares diante da cigana, que sorriu e me orientou a aproximar-me, ao que gentilmente obedeci. Estávamos agora distantes apenas alguns palmos. O sorriso da moça era estonteante: rosto , colo e mãos denunciavam ter 21 ou 22 anos de idade.

Era uma belíssima jovem cigana. Um lenço grená de seda prendia-lhe os cabelos negros. Brincos de argolas de ouro reluzente ornavam-lhe o rosto. Sob as sobrancelhas delicadas, dois olhos me fitavam profundamente, dois olhos lilases, perturbadores, insinuantes, um quê melancólicos. Os lábios, de um carmim pecaminoso, sorriam, deixando entrever uma pontinha de língua entre dentes, articulando sons ininteligíveis, talvez um castelhano tardio.

O decote generoso do vestido largo e diáfano... Colares, pulseiras, um fiapo de cabelo insistindo em cair-lhe à testa. Harmonia, beleza, magia.

Assim sentados, nossos joelhos se encostavam, criando uma sensação de calor invadindo corpo e alma. Achava-me como que encantado. Não falava, não gesticulava, nada perguntava, até que ela aproximou seus lábios de minha orelha e sussurrou, numa língua estranha, algo que não conseguia entender, mas que pelo gesto repetidas vezes feito insinuava pretender ler a sorte futura nas linhas de minha mão. Estendia-a para ela.

A cigana tomou-a entre suas mãos cálidas, macias e perfumadas. Com o indicador, foi percorrendo as linhas de minha palma direita. Parecia que tudo girava ao meu redor. Do lado de fora, um alto-falante roufenho reproduzia a angústia de Total, na voz de Roberto Yanés: Pensar que llegar a querer-te és creer que la muerte se pudiera evitar ...

Subitamente, perdi o controle da situação e quando voltei a mim tinha as mãos dela seguras entre as minhas Nossos corpos estavam mais próximos, a ponto de lhe sentir o perfume e o calor de seu colo. Ela se afastou um pouco, balançou lentamente a cabeça sugerindo negativas, fitou-me com seus olhos lilases e disse algumas palavras que se misturavam a “amanhã... amor incompreendido... talvez uma aventura ... país distante... doença tropical... amor... amor... paixão...” Mas à medida que ia dizendo essas coisas, parecia-me não estar ouvindo ou entendendo bem; enquanto isso, ela foi se aproximando de meu rosto novamente. Desta vez não houve recusa. Ela se manteve imóvel, mas falante, deliciosa e lentamente falante. Cochichos bailavam no ar.

Agora era eu quem sussurrava ao ouvido dela. Atropelado em juras de amor à primeira vista, dizia de meu encantamento, enquanto minhas mãos procuravam enlaçar-lhe os ombros desnudos. Total. Perfume oriental. A bela cigana ora se oferecia, ora recuava fingindo timidez. Minhas mãos lhe tocaram a cintura. Frêmito de desejo!

Bateram palmas fora da barraca. Duas batidas fortes. A moça afastou-se com as mãos delicadas em seu peito já arfante. Sem se anunciar, um calabrês rompeu tenda adentro e falou à cigana uma fala estranha aos meus ouvidos, uma fala de comando, de ordem, de ruindade. A belíssima jovem estendeu a mão e entregou ao intruso alguma coisa que rapidamente foi para o bolso. Senti, não posso esquecer, um misto de ciúme e raiva. Quis levantar-me e opor-me àquele homem. Mas os olhos lilases da cigana me acalmaram. O intruso saiu, tão abruptamente quanto havia entrado.

Não me recordo mais do que ocorrera dali em diante dentro da barraca. Apenas que já me encontrava fora dela, na rua, tonto, querendo entender o que havia acontecido, com o desejo não satisfeito à flor da pele. Caminhara em direção oposta. Mal conseguia ordenar os pensamentos.

Pensei que poderia estar atrasado ou algo assim. Consultei o relógio para saber as horas. Um frio percorreu-me a nuca. Que relógio? Onde está meu relógio? A cigana, aquele homem...

Não esperei pelas conclusões. Dei meia-volta e retornei a passos largos à barraca de voile branco. Agora a praça comportava muito mais gente. Quando me aproximei do local em que estivera junto à cigana, pude ainda sentir um resto de perfume no ar. Com ambas as mãos, afastei o tecido que o separava do interior e entrei... É claro que não encontrei a cigana, embora o tapete denunciava que tudo o que havia ocorrido fora real, mas de um efeito amnésico. Não retinha exatamente os detalhes. Só podia estar mesmo enfeitiçado.

Senti raiva, quis gritar, mas me lembrei dos olhos lilases da cigana, de seu colo, seu perfume, o calor de suas mãos, o roçar dos lábios em minha orelha, meu pescoço, as faces ardentes se tocando, os joelhos, o momento mágico de um pré-acontecimento que não acontecera. Então me acalmei. Pensei idiotices: “Se tivesse outro relógio, eu o daria a esses malandros para vê-la uma vez mais, senti-la uma vez mais...”

Retirei-me da tenda. Inspirei a brisa morna da noite enluarada. Tinha apenas 19 anos. Talvez surgissem outras ciganas em minha vida, mesmo que para isso tivesse de perder a carteira, talvez. Sorri.

“E agora, A ...”

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