Os segredos da serra do Indomado

Por: Lucileida Mara de Castro

172147

-Tito, é verdade que você é mais velho que o tempo? A voz do menino soou calma e íntima enquanto ele rabiscava o chão com graveto que lhe servia de brinquedo.

Há horas estavam andando serra acima. À frente, ziguezagueando entre arbustos e cascalhos, ia o cão do menino. Logo atrás, trilhando o caminho árduo com passos firmes vinha o velho. Por último, seguia o menino com seus passos mais leves e hora ou outra, mais cansados. Subira, por muitas vezes, a serra do Indomado e nunca a vira igual. Pequenas flores roxas salpicavam a vegetação rasteira aqui e ali. Um tico-tico se arriscava por entre as folhas ralas das raras árvores retorcidas, borboletas azuis, amarelas infinitas desafiavam o vento. Um pouco adiante, a água jorrava do paredão dos Gonzaga para o vazio e se lançava de uma altura tal que lá embaixo chegavam apenas sereno e gotículas, mas ainda assim viravam poço e o poço virava riacho intenso.

Quando por fim alcançavam a derradeira altura da serra, o mundo se alastrava aos seus pés. Se olhavam para o Norte, na outra corcova da serra viam uma casinha branca. Ali Dora do Ananias cuidava de uma meia dúzia de vacas magras e acudia sua vida como Deus a mandava. Mais para o Sul a cidadela se encolhia em meio àquelas furnas e reentrâncias do relevo caprichoso. Era assim um Deus-dará, algo como a última paragem antes de se chegar ao fim do mundo. Os olhos do menino viam tudo. A alma do menino aprendia aquele mundo e ia aos poucos se encantando. Era um encantamento miúdo, que vinha aos poucos, como que esculpido pela solidão e pelo silêncio.

Por isso era econômica e solitária a voz do menino quando lançou a pergunta: – Tito, é verdade que você é mais velho que o tempo?

Tito não estranhou a pergunta. Apenas riu com aquela boca de poucos dentes. Riu daquele jeito só seu, sacudindo-se de levinho, balançando o corpo, rindo com o corpo inteiro. Seu rosto era só bondade e mistério. Os olhos, porém, eram marotos e se sentiam muito à vontade diante dos segredos e mistérios. A despeito disso, havia sinceridade e respeito em sua voz quando respondeu:

– Eu era um menino de cinco anos quando o tempo nasceu. O pô-do-sol ia adiantado quando meu pai olhou os rabiscos do sol no céu, deitou-se no chão, fechou os olhos e morreu. Foi quando a brisa virou vento e esse vento ventania. O vento dos três dias e três noites tombou tudo o que passava pela sua frente. Foi aquele vento que despertou o tempo que, até então, dormia eterno nas entranhas da serra do Indomado. Mas o tempo passa depressa e eu passo devagar. Por isso parece que o tempo é mais velho do que eu.

Tito acabou de falar e cuspiu para longe o amargo da boca. Olhou mais uma vez para o menino e para o cão. Entretanto, os olhos e a lembrança do velho não estavam mais ali. Estavam de volta ao tempo em que o tempo nasceu.

Para o pai era Pequetito. Depois que ele se fora, virou Tito. Foi Tito quem viu o tempo nascer. É Tito quem está imerso nas lembranças despertadas pela pergunta direta do menino: Como foi que o tempo nasceu?

O velho caminha devagar sobre o capim encrespado do alto da serra. Vai até a beira do precipício improvável. Deixa seus olhos beberem tudo: o verde, os paredões de pedra, o vôo dos pássaros, o azul, o barulho da água caindo, a vila tão pequena lá embaixo, a fumaça que se liberta pela chaminé do casebre da dona Dora Ananias. Enquanto bebem tudo, os olhos vão construindo uma sinfonia. É essa sinfonia que abre as portas das suas lembranças e afina a voz profunda para que o menino ouça a resposta.

O velho já não sorri. É chegado o momento de compartilhar o segredo e ele não está certo de que o menino compreenderá. Porém já não há mais volta e é preciso usar a palavra para descortinar o profundo.

– O tempo nasceu para mim no dia em que nasceu a dor. O tempo absoluto não é esse dos dias e das noites que passam. O tempo absoluto é despertado pelas perdas e são as perdas que trazem as lembranças. O tempo, menino, não é fora da gente. O tempo é dentro. Essas terras já foram aradas pelas mãos de meu pai a quem esperava a minha mãe. Minha mãe gestou e criou e perdeu filhos que encheram nossa casa de risos e choros, de causos e silêncios. Você sabe por que eu subo até os limites da serra do Indomado? Para reencontrar aqueles que tecem minha existência: o pai, a mãe, os manos, os tios. Para ouvir outra vez os seus risos e vozes que vêm no vento do tempo que nasceu dentro de mim e virou lembranças. As lembranças curam a dor da espera da chegada do dia em que vou me juntar aos meus.

O menino olha para Tito de um modo profundo. Após dizer o que disse, Tito fica mais velho ainda. Parece que o seu tempo passou mais depressa do que sempre. O homem velho sabe o que o menino está pensando. Mas, ao final, tudo é apenas espera. Compreendido isso, o velho e seu cão descem a serra e o tempo mais uma vez adormece.
 

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras