O Programa do Guri

Por: Chiachiri Filho

Roquete Pinto, pioneiro da radiodifusão no Brasil, sempre destacou a importância do rádio na formação cultural de nosso povo. País de analfabetos, o rádio deveria ser o grande veículo da informação e da cultura. De início, a programação era da melhor qualidade. Palestras , conferências e consertos de alto nível chegaram a ser transmitidos. A linguagem e a pronúncia eram impecáveis e as vozes perfeitas. Os microfones não eram entregues a qualquer analfabeto. Porém, o analfabeto não é somente aquele que não sabe ler e escrever. O analfabeto não consegue ouvir e interpretar textos que fogem ao seu entendimento. Além do mais, quem podia comprar um aparelho de rádio, podia também assinar jornais e revistas. Portanto, o rádio teve de perder a sua qualidade para ser entendido pelo povo.

A rádio Hertz de Franca, tendo como prefixo PRB 5, era uma das emissoras mais antigas do Brasil. Nela destacaram-se, só para citar os mais conhecidos, a novelista Janet Clair, o jornalista Vicente Leporace, o narrador esportivo Pedro Luís Paullielo. Eu cheguei a participar da fase áurea da radiodifusão, fase em que eram apresentados os programas de auditório, as radionovelas, os informativos culturais e jornalisticos da mais alta qualidade. A rádio constituía-se no centro das atenções, monopolizava a cidade e tinha uma influência extraordinária (como ainda hoje tem) na formação e controle da opinião pública. Lá pelos inícios dos anos 50, eu participava de um programa de auditório chamado Programa do Guri. Realizava-se em todas as manhãs domingo e era comandado pelo radialista José Reinaldo Faleiros do Nascimento. O auditório (naquele tempo as rádios tinham auditórios), situado na Rua Marechal Deodoro, em frente à Praça Barão, no andar superior de um velho prédio que ficava quase na esquina da Rua do Comércio, estava sempre repleto. O programa era de cantores-mirins e cantava-se as músicas da época. Havia prêmios e eu ganhei alguns. O programa era animado, divertido, dinâmico. Luís Gonzaga, o Rei do Baião, estava na moda. Com cinco ou seis anos de idade, eu soltava a voz e cantava:

“Vem cá cintura fina
Cintura de pilão
Cintura de menina
Vem cá meu coração."

Quando José Reinaldo parou de animar o programa, eu também parei de cantar. Ele foi surfar em outras ondas herttzianas e trocou de nome. Passou a se chamar Garcia Neto (Garcia era o sobrenome de seu avô).Garcia andou pelo Paraná, São Paulo (capital), Rio de Janeiro. Tornou-se um radialista de projeção e respeito. Porém, não se esqueceu de sua Franca (embora fosse mineiro). Voltou para a cidade com o nome de Garcia Neto e aqui viveu até partir novamente para outra dimensão levando consigo um conhecimento extraordinário da história de Franca vivida por ele com muita intensidade e amor.
 

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