A reciclar

Por: Maria Luiza Salomão

O rodízio de renovação dos efêmeros...

Os plátanos da Avenida se vestem de dourado, prometem um strip-tease, breve. O rasante voo do tucano, em plena segunda-feira, me promete um dia colorido. Azul como maio, o céu. A chaminé da padaria exala fumaça preta e cheirosa. As imensas rosas brancas dos meus cactos espocaram, muitas, e me desertaram. A panela italiana me fez cozinheira de melhor risoto. É bom flanar pelas ruas, no carro, a ouvir jazz. Lembro vagamente de dias-nuvens tranquilos. Vívidas, as noites-tempestades. Gentes rebrilham, como raios, cada uma no seu silêncio. Um raio cai no mesmo lugar? Ou...

Tenho guardado memórias fogosas, aquosas, terrosas e aéreas, com carinho - pode ser que elas oscilem, transmutem, ou reajam entre si os seus elementos, e daí não sei...

Tudo o que morre ressuscita diferente. O que vive assim, hoje, morre assado amanhã, ou esfumaça daqui a algumas horas, ou desaparece em um minuto, ou rodopia em um segundo...

(A língua portuguesa é uma beleza: cada dia aprendo mais do mundo, no seu través)

A Vida é vasta e estreito é o meu tempo. Não dá para esperdiçar! Estou a reciclar... 

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