Se eu não fosse eu

Por: Heloisa Pereira de Paula Reis

Às vezes eu tenho vontade de ter sido alguém que não eu. Alguém diferente de mim... Ter tido outra vida... Quem sabe fosse uma vida instigante... Ou uma vida que eu passaria por ela de modo apático, indiferente...

E se assim fosse, será que eu poderia escolher quem eu seria ou teria que contentar-me em ser você, que me teria sido permitido ser? E se eu fosse você, quem seria eu?

Em que berço eu teria nascido? Quem seriam meus pais, meus irmãos... Se é que eu os teria. Ou seria filha única, não mais a única mulher entre três irmãos. Como sou. Como teria sido minha infância... Feliz ou não? Seria uma infância como outra qualquer, cheia de altos e baixos, momentos bons e ruins?

Certamente eu não me lembraria de minha lousa feita de madeira comum e pintada de tinta preta, feita por um vizinho e na qual realizei meu sonho de ser professora... Da minha boneca. Ou teria outros sonhos e mais bonecas?

Seria uma infância repleta de sons e odores que me trariam saudade de minha casa, da casa de algum parente ou de uma amiga?

E eu, fisicamente como seria? Alta ou baixa, gorda ou magra, olhos claros ou escuros, cabelos lisos ou ondulados? Ou seria tudo dentro da medida, tão igual a você, que gostaria fosse eu...

Teria o corpo que pedi a Deus, ou o corpo que a ninguém pedi e a mim foi entregue? Difícil saber.

Como é que minha vida seria, se eu tivesse a sua vida? Eu estudaria mais ou menos do que estudei? Qual seria minha profissão? Será que eu a exerceria? Será que eu lutaria para ser uma profissional de sucesso ou me contentaria em ser uma profissional medíocre, aceitando a mesmice de cada dia, ansiando tão somente pelo salário ao final do mês. Um parco salário, que talvez nem desse para pagar as despesas mensais, nada sobrando para ao final de algum tempo, dar-me ao luxo de viajar, comprar ou trocar de carro ou guardar para ter um final de vida mais tranquilo...

Estaria receptiva ao amor? Se estivesse, seria amada ou amaria? Se amasse, amaria quem me ama ou sofreria a dor de não ser amada por quem eu queria me amasse ou seria amada por aquele que eu nunca amaria? Ou seria amada por quem me quisesse e por quem eu queria... Eu me casaria e teria filhos? Ou optaria ou “optariam” para que eu permanecesse solteira?

Se eu não fosse eu, teria sido você. E sendo você, como será que eu seria? Será que estaria aqui a divagar, ou seria aquela que aceita tudo como deve ser, nada mais nada menos do que eu, com minha digital intransferível, como nasci para ser e ponto

E você? Tendo sido eu, como é que será que você seria, como será que se sentiria... A pobre menina rica ou a rica menina pobre? Talvez a pobre menina pobre, sabe-se lá... Mas pobre ou rica de que? De bens materiais? De saúde? De felicidade?

Difícil saber para quem dá asas à imaginação e se deixa levar pelo vento, em direção a algum lugar ou a lugar nenhum. Como se possível fosse...

“Quando, no princípio, Deus criou suas obras, assim que foram feitas, atribuiu um lugar a cada uma.” Eclo. 16,26.
 

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