Realidade e ficção

Por: Everton de Paula

Não deixou de ser interessante a reação de alguns leitores ante o texto exposto aqui, na semana passada. Para muitos deles, nem lhes passou pela cabeça a hipótese de alguém poder escrever ficcionalmente sobre pessoas e situações menos comuns. Enfrentei várias perguntas:

- Aquela história aconteceu mesmo?

- Era você mesmo na história?

- Você tinha mesmo apenas 19 anos de idade?

- Como se recorda de tantos detalhes até hoje?

- Afinal, quem é esse personagem tão jovem, apaixonado e preocupado com A...?

Outras perguntas foram mais originais:

- Não seria a mistura de... com...? sugeriu outro.

- Não tenho dúvidas: trata-se de um caso de alter-ego!

Mais radical foi o causídico, ressabiado:

- É, estão aí muitas pistas. É só ter paciência e se descobre tudo...

E assim, graças a leitores tão variados na opinião e entendimento, estou entrando num dos assuntos literariamente mais discutidos os limites entre a realidade e a ficção.

Quem escreve, tem o direito (e por vezes até o dever) de modificar a realidade, tirando-lhe os contornos muito nítidos, fundindo e separando personagens ou situações. Ou seja, nada impede que aquele personagem de 19 anos seja baseado em um homem de carne e osso que conheci. Confundo o leitor tratando-o por “eu”. Posso também tê-lo construído com pedaços deste e daquele que conheço concretamente ou através de um texto alheio A missa do galo, de Machado de Assis, por exemplo. Não há semelhanças? Até importantes detalhes do personagem feminino (a bela e misteriosa cigana) poderão ter sido elaborados com base em pessoas da vida real ou literária, como a “bela espanhola” de Machado, em Memórias póstumas de Brás Cubas. Por que não?

Não é raro tomarmos conhecimento de uma situação assim: um artista de renome nacional ser grosseiramente interpelado e até agredido na rua por causa de um papel antipático que interpreta numa novela televisiva. É que o espectador convencional, quando penetra no clima do texto ou da apresentação, tem muita dificuldade em distinguir o eu-intérprete do eu-personagem. Para a maioria, os dois apenas podem ser uma coisa só... Isto não deixa de ser boa prova de quem representa...

No meu caso particular é sempre bom lembrar que sou narrador, não personagem!

Esse problema de equiparar ficção e realidade é muito antigo. Ficou famoso, por exemplo, o interrogatório judicial a que foi submetido Gustave Flaubert, o escritor Frances de Madame Bovary (1857). Neste livro, pela primeira vez, foi tratado com realismo o tema do adultério feminino: Emma, a mulher casada com um médico de aldeia que pouca atenção lhe dava, tantos eram os clientes necessitados dos préstimos dele, a mulher se deixa seduzir por um sujeito galanteador, que lhe arruína a vida e a leva ao suicídio.

A conservadora sociedade francesa dos meados do século XIX não pôde deixar de considerar o desenvolvimento do incomum tema como uma ameaça aos bons costumes, à própria instituição do casamento. Daí o processo contra Flaubert e a incisiva pergunta que lhe fez o juiz:

- Afinal, senhor Flaubert, quem é essa Madame Bovary?

Então Flaubert lhe deu uma única resposta plausível sob o ponto de vista da literatura:

- Madame Bovary sou eu...

Que quis Flaubert explicar com isto? Que a construção de sua personagem não se resumira a mera cópia de um caso verídico; ele não havia traçado a biografia de mulher alguma. Ao contrário, somando situações particulares, reais ou não, desta ou daquela mulher, construíra a sua Bovary, um produto final inconfundível, porque amarrado com a imaginação e a criatividade do autor. E com seu estilo. Ao erigir com palavras aquela mulher de vida tão vazia e de final tão infeliz, Flaubert deixou claro que seu compromisso não era com a verdade (um drama real vivido por alguém), mas com a verossimilhança (o drama ficcional de uma personagem com algum apoio na realidade, nascida na cabeça e no coração do escritor, mas capaz de um comportamento aceito como próprio de uma pessoa real).

É assim que quase sempre acontece na literatura e no teatro. Não deixa de ser estranho, reconheça-se, que algumas personagens alcancem tal grau de credibilidade, que se discutem com o calor e paixão as razões de seu comportamento INVENTADO.

Não foi assim com Capitu, outra vez Machado de Assis?

Assim, há três personagens em destaque ou quase em meu conto da semana passada: o “eu” de 19 anos, a bela cigana e o calabrês ladrão. Quem eu sou? O calabrês, porque adoro interromper o curso de uma situação em suspense.

Daí o meu reconhecimento a todos que se preocuparam numa pessoa de carne e osso, com CIC, RG, medidas etc., a minha imaginária cigana e o meu rapaz de 19 anos, muito apaixonado. Sua montagem ficcional foi bastante trabalhosa, facilitada com o aproveitamento de traços de pessoas que realmente existem, misturadas com a liberdade inerente a quem escreve: colocar na mesma vasilha realidade e ficção; tirar dessa instável mistura as consequências, as lições e até os recados que bem tenha querido passar.
 

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