Meu Irmão e muitos preconceitos

Por: Ubiratan Brasil

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Os atentados terroristas de 11 de setembro de 2001 nos Estados Unidos alteraram drasticamente as relações entre nativos e imigrantes naquele país, que se tornaram mais agressivas e desconfiadas. O acontecimento inspirou uma série de livros romanceados, entre eles, Meu Irmão, lançamento da editora Rocco e escrito por H. M. Naqvi que, embora nascido em Londres, é cidadão paquistanês.

Não se trata de mais uma obra sobre os efeitos de atos tão violentos: mais que as situações, Naqvi registra um linguajar que se tornou próprio de emigrantes, unindo construções da fala original com a do país adotado, criando uma sonoridade própria. Meu Irmão acompanha Chuck, um jovem paquistanês de 17 anos que estuda Literatura Inglesa em Nova York. Analista financeiro em Wall Street, ele leva uma boa vida ao lado de amigos muçulmanos, frequentando baladas.

Tudo muda com a queda das torres gêmeas: rapidamente, Chuck e seus colegas passam a ser observados por um ódio exacerbado, a ponto de ele perder o emprego, o que o obriga a trabalhar como taxista. E, durante uma viagem a Connecticut em busca de um outro amigo, Chuck acaba preso e violentamente interrogado.

“Não se trata de um livro sombrio -na verdade, é fundamentalmente uma comédia de erros’, disse Naqvi à reportagem, em entrevista por e-mail. ‘Vejo como um romance de formação, na tradição de Huckleberry Finn ou O Apanhador no Campo de Centeio. A trama apresenta situações mais inusitadas que seus personagens, que bebem, dançam e se entregam à droga no banheiro. Não há dúvida de que o romance é político, pois faz parte da própria história, mas que melhor maneira de lidar com questões profundas que a comédia?”

O grande trunfo do escritor paquistanês foi criar um universo que une cultura hip hop com referências eruditas, resultando uma aguda observação sobre a América pós-atentados. “Quando mais jovem, fui um poeta muçulmano e, como talvez você saiba, artistas desse naipe se obrigam a se fazer ouvir. Daí, talvez, a origem de uma prosa tão evidentemente poética”, observa. “A escrita de um romance não é como a do rádio ou televisão. Deve-se significativamente se envolver com uma obra particular. Embora o romance possa ser salpicado com algumas palavras polissílabas, também não fui cauteloso ao empregar palavras de quatro letras, como shit e fuck.”

Naqvi garante que o personagem Chuck é apenas ‘14% autobiográfico’, mas insiste que se coloca estrategicamente entre Naipaul e Nabokov quando o assunto é literatura política. ‘Naipaul não celebra a união entre política e prosa’, afirma. ‘Como um homem que sente a falta das próprias tradições, alguém admirado com a grandeza da Grã-Bretanha, Naipaul é talvez patologicamente político. Por outro lado, Nabokov, um homem que fugiu da Rússia czarista apenas com as roupas do corpo e nunca voltou, parece ser quase apolítico. Ele parece satisfeito ao costurar frases ricas e ressonantes.’

Serviço

Título: Meu irmão
Autor: H.M. Naqvi.
Tradução: Lucas Murtinho.
Editora: Rocco
Páginas: 256
Preço: R$ 38,50

O olhar estrangeiro

H.M. Naqvi

H.M. Naqvi nasceu em Londres em 1974 e passou a infância entre Karachi, Istambul, Argel e Nova York. Mais velho de três irmãos, falava urdu e inglês em casa, alfabetizou-se aos cinco anos, começou a escrever aos seis: “Não me lembro de ter passado, desde então, um só dia de minha vida sem escrever”, afirma o novelista que teve textos curtos adaptados para teatro e rádio. 

Após se graduar em Economia e Literatura americana pela Universidade de Georgetown em 1996,escreveu histórias curtas, que o ajudaram a sobreviver com um orçamento de dois dólares por dia. Nesta época participou de um fórum de poesia em Whasington DC, representando o Paquistão, sagrando-se vitorioso.O êxito o tornou visível ao público e editores. No ano seguinte conseguiu colocar-se como funcionário do World Bank, na Costa Leste, onde permaneceu por oito anos. Ao sair, foi para Cambridge, onde fez curso de escrita criativa, e Harvard, onde participou de aulas sobre cinema contemporâneo. 

Com Home Boy/Meu Irmão, romance de estreia, ganhou o Prêmio DSC, criado para estimular autores oriundos do Sul da Ásia. Respondendo à questão colocada por alguns críticos, o de que sua personalidade parecer estar refletida no romance, diz que “ todos os romances de estreia são autobiográficos.” E explica: “Eu estava na América durante a tragédia. Foi uma época incerta, e como um escritor, a gente escreve para fazer sentido a si mesmo a ao mundo.”
(SM) 
 

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