Onze anos depois

Por: Mirto Felipim

172908

Então, encontram-se. Sem combinações, de repente, estavam ali. Sozinhos, no mesmo shopping da despedida, do último filme, da última pizza, da última discussão, da derradeira transa abortada no calor da briga. Onze anos depois, estavam ali.

Viveram um amor proibido e intenso, quando ele ainda era casado, com o complicador de dois filhos, e ela no caminho inevitável do sucesso profissional. Ela não sabia da separação e ele se apressou em dizer. Continuava galante, falando o que ela queria ouvir e ela se sentiu mais uma vez seduzida.

...

Vários anos fora da cidade, crescera muito profissionalmente, mas com relacionamentos raros e nenhum fixo. O sonho de filhos ficava cada vez mais distante. Mantivera o apartamento, para suas raras estadas na cidade, para ver a família.
...

Preliminares formais cumpridas, rumaram para o mesmo apartamento, o dela, onde vezes tantas haviam delirado sob o efeito de um bom vinho, boa música e o sexo perfeito que um ao outro sempre proporcionava, conhecedores dos labirintos libidinosos e livres para a transgressão divina.
...

Ao amanhecer, observando-a solta, mole, disforme, entregue ao sono reparador, arrependeu-se ligeiramente do novo encontro. A carne branca, antes brilhante e firme, agora transbordava ligeiramente da calcinha e o tom não era mais brilhante e sim amanteigado. Os peitos já ameaçavam denunciar a impiedade do tempo. Também não era mais aquela tigresa fogosa e imaginativa. Não se sentiu infeliz, mas também não estava feliz. Apenas desiludido. Não teve, como nos bons tempos, vontade de acordá-la com toques sutis em seu dorso, outrora firme e convidativo, para recomeçar o ilusório delírio. Levantou-se cuidadosamente, pegou sua roupa, vestiu-se rapidamente na saleta e partiu.
...

Ao ouvir o quase imperceptível som da porta se fechando, ela abriu os olhos e deu graças a Deus. Concluiu que realmente não estava escrito que seria feliz na cama. O que parecia ser uma noite inesquecível tinha sido apenas suportável. “Como ele estava decadente, sem imaginação e convencional, meu Deus!” Felizmente a havia poupado de uma despedida insossa. Melhor ter partido discretamente, livrando-os de um apêndice torturante e civilizado.

De repente um ligeiro pânico: “E se ele tivesse saído apenas para comprar os jornais, como nos velhos tempos?”
 

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras