Bolero

Por: Hélio França

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Um estrondo abafado fê-lo dirigir a visão por sobre as casas, percebendo a tarde escura e as nuvens carregadas. Havia acabado de fechar a porta da BMW preta. Minutos após, pingos esparsos espatifavam nos telhados e nas ruas. Acelerou o andar esbarrando nas pessoas preocupadas com a chuva iminente e, com o paletó já pontilhado de respingos, entrou. O local era um misto de restaurante, bar e cabaré, situado num bairro predominantemente boêmio. Recluso para os moldes do estabelecimento, compreendia uma pequena porta de entrada onde acima se podia ler a placa em letras góticas : D’Artagnan. Habitué do lugar, sentou-se na mesa aos fundos, o que lhe permitia uma visão panorâmica do balcão e da pista de dança, enquanto iria relaxar ao som de um preguiçoso bolero. Ficaria ali horas e horas para recompor o corpo do dia cansativo de serviço em sua incorporadora, através da aprazível sensação de admirar a sinuosidade das mulheres.

— Boa tarde, vai beber algo ? Perguntou o garçon.

— Sim, por favor: gin, água tônica, gelo, limão e uma pitada de açúcar. Respondeu, demonstrando conhecer o drink , enquanto afrouxava o nó da gravata.

Minutos após deu um gole lento na bebida para acostumar o paladar... Em seguida outro, olfatando sofregamente o odor aromático e característico exalado pelo gin.

Das horas que o dia lhe dava, as únicas que supunha prazerosas eram as primeiras da noite, vividas no lusco-fusco dos cabarés. Gostava de conhecer novos personagens e suas histórias, mulheres principalmente. Isto o ajudava esquecer algo que ficara retido em sua mente, o romance tórrido que vivera com Selma, a única a lhe bagunçar a alma deixando-a em desalinho, sem rumo definido, após o rompimento.

Lá estava, como sempre, afogando as lembranças do passado e as mazelas do dia no tilintar de algumas pedras de gelo, quando um perfume feminino fê-lo voltar os olhos para o lado. Por instantes duvidou se era mesmo verdade. Ficou admirando-a por uns cinco minutos, tempo suficiente para observar criteriosamente aquela mulher com rosto de menina, a roupa insinuante, seus gestos delicados. Quando ela se levantou para ir retocar o batom, notou seu andar sensual, como que pisando numa linha imaginária, os quadris parecendo um barco à deriva em mar revolto ...

Lá fora a chuva forte regredira, agora era apenas uma garoa preguiçosa que parecia não chegar ao chão. Às vezes a porta do D’Artagnan se abria para a entrada de novos clientes, oxigenando o ambiente com o ar úmido e fresco da noite.

Voltou novamente o olhar para a moça que conversava animadamente com outra. Aliás, a outra já a tinha visto algumas vezes em outros estabelecimentos. Soubera um dia que ela estivera alguns anos recolhida ao presídio, por ter participado como coadjuvante no assalto e morte de um homem supostamente rico, que freqüentava esporadicamente tais lugares. Mas seus olhos estavam fixos na moça com rosto de menina, sorriso fácil, dentes brancos emoldurados por lábios carnudos, vermelhos. Esta não lhe deu atenção, não lhe dirigiu um olhar sequer.

Os três músicos da casa engataram uma seleção de melodias convidativas à dança. Otacílio, agora com o olhar voltado para o balcão, fazia menção de chamar o garçom para lhe servir outro gim, quando foi interrompido por um suave toque no ombro esquerdo. Uma fração de segundo antes de virar-se, reconheceu o odor envolvente do perfume. Levantou-se e quando tentou pronunciar qualquer palavra, sua intenção foi interrompida pela voz da linda moça que estivera observando há pouco.

—Vamos dançar ? Ela perguntou.

Não refeito ainda da surpresa, Otacílio não teve tempo de responder direito e se viu na pista de dança, levado que fora pelas mãos suaves que agora envolviam seu pescoço, fazendo seu corpo menear, dois pra lá... dois pra cá...
 

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