O amor platônico do Padre Vieira

Por: Ubiratan Brasil

173637

Condenado pela Inquisição de Coimbra por fazer duras críticas à exploração dos escravos, o padre português Antônio Vieira foi privado, em 1667, do direito de pregar em público, além de ser obrigado a passar cinco anos como degredado, em Roma. Um doloroso castigo, pois os sermões transformaram Vieira, nas sábias palavras de Fernando Pessoa, no ‘imperador da língua portuguesa’. A punição foi amenizada, no entanto, pela amizade epistolar que o religioso manteve com Cristina Vasa, ex-rainha da Suécia que, depois de abdicar do trono, se mudara para a Itália, em 1656. A silenciosa mas intensa relação entre eles inspirou a pesquisadora austríaca Gloria Kaiser, que escreveu O Poder Erótico (Reler Editora), livro lançado no dia 3 de maio, no Rio de Janeiro, com a presença da autora.

Baseada nos diários e nas cartas do padre e da ex-monarca, Glória reconstituiu, de forma delicada mas precisa, uma sofrida e apaixonada relação. ‘Foi platônica, como bem afirma o historiador Ronaldo Vainfas na introdução de meu livro’, comenta a pesquisadora. ‘Mas também foi muito erótica.’ Obrigado a se manter em silêncio, Vieira (1608-1697) tornou-se o capelão particular de Cristina, que conseguiu tal liberação diretamente com o papa Clemente IX. Ela já era admiradora de seus sermões, daí a insistência em manter um contato direto.

Na verdade, são dois personagens fascinantes. Antônio Vieira passou 62 anos de sua vida dedicado às atividades religiosa e literária, que dariam ao idioma português o mais esmerado dos tratamentos e o mais aprimorado domínio da técnica. Já Cristina Vasa surpreendeu o mundo ao abdicar do trono sueco em 1654 por motivos incertos - aparentemente foram problemas para governar, como dificuldade na fixação de impostos e más relações diplomáticas com a Polônia. Mas ela era uma mulher muito avançada, pois gostava de vestir trajes masculinos, nunca se casou e teve casos com homens e mulheres.

‘Vieira viveu a sublimação do erotismo’, comenta Glória. ‘O erotismo sublimado, elevado, reservado às atividades espirituais. Um erotismo nutrido pela saudade a ponto de ficar irrealizável. O erotismo como saudade de saudade. O erotismo como força poderosa na vida de cada pessoa (consciente ou inconsciente).’

O relacionamento entre o padre e a ex-rainha se baseou em encontros mais ou menos regulares no Palácio Riario, onde Cristina residiu. Vieira também participou em silêncio dos encontros da Accademia Reale, fundada por ela e centro de discussões intelectuais. Ele escreveu textos lidos pelos cardeais e por Cristina sobre temas diversos, como a ameaça dos turcos sobre a Europa ou críticas à sujeira e ao abandono em que se encontrava Roma.

‘Em diálogo com Cristina, ele abriu pouco a pouco a alma’, comenta Glória, observando que o padre se lembrou de admirações passadas para sublimar o desejo. ‘Quando se referiu à rainha Dona Luísa, Vieira disse: ‘No momento em que me deparei com Dona Luisa, fui tomado por enormes forças e desejos - e uma labareda de fogo surgida de algum lugar proibido invadiu a minha vida. Encontrei um mundo que eu ainda não havia pisado.’’

A amizade uniu o religioso e a rainha até 1675, quando o papa Clemente X absolveu Vieira das acusações da Inquisição. Não voltaram mais a se falar, apesar da insistência de Cristina. Quando morreu, em 1689, ela foi sepultada na Basílica de São Pedro, entre papas, a pedido de Padre Vieira.

Serviço
Título: O Poder Erótico
Autora: Glória Kaiser
Gênero: Romance histórico
Tradução: Marlene Holzhausen
Editora: Reler

De olho no Brasil

Glória Kaiser
Nascida em 1950 na antiga e gelada Styria, localizada no sudeste da Áustria e berço de alguns Habsburgos, Glória Kaiser é escritora que tem lançado olhares sobre o Brasil, país que visita com frequência. Para lançar O Poder Erótico, esteve no Rio de Janeiro no começo de maio. Glória escreveu dois livros sobre Dona Leopoldina e um sobre Pedro II. Historiadora que revela cuidado com as fontes, às vezes se dá algumas liberdades não permitidas ao crivo realista. Não inventa, mas parte de deduções lógicas, como admitir que houvesse algum encantamento de Leopoldina por José Bonifácio a partir de cartas calorosas. E é isso exatamente que torna seus livros cada vez mais lidos. A vida privada é fonte inesgotável de fatos que aguçam a curiosidade. Em 2005 afastou-se dos trópicos e foi pesquisar nas salas das bibliotecas de Viena e Salburgo, de onde resgatou documentos que lhe permitiram escrever sobre o músico de uma perspectiva pessoal. Mozart: sua vida em cartas nos mostra o filho, o irmão, o pai, o marido, o amigo,  o primo e o homem em seus diversos papeis no seio familiar. A escritora retornou ao Brasil gaúcho em Anita Garibaldi. E agora oferece ao leitor esse interessantíssimo O Poder Erótico, onde revela a paixão platônica do padre português pela rainha Cristina, da Suécia, cuja vida já rendeu filme. Quem já leu o Padre Vieira poderá entender enfim de onde se originou aquela energia extraordinária que tanto quanto produzir exegese inseminou as palavras de Os Sermões. (SM)
 

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras