Histórias do historiador

Por: Luiz Cruz de Oliveira

Os acontecimentos são muitos, os anos se amontoam, por isso, tantas vezes confundo datas, nomes, números, lugares. Mas estou quase certo de que foi em 1997 que presenciei o que vou relatar.

José Chiachiri Filho e eu servíamos ao governo de Gilmar Dominici, ambos lotados no antigo Ginásio Champagnat. Mania dos dirigentes daquela época - marcavam-se reuniões com muita freqüência, todo mundo se atrasava, perdíamos um tempo danado, ouvindo planos, projetos e orientações diversas. Geralmente tais encontros aconteciam na respeitável capela do antigo colégio religioso a qual, ainda hoje permanece em obras, ora por restauração de seu altar, de sua abóbada, de seus anjos e de seus santos.

Lembro-me especialmente de uma dessas reuniões.

A capela estava superlotada. Os oradores, obedientes à praxe, estavam atrasados, o calor estava insuportável, o cheiro de suores empestava o ambiente. Nessa hora, Chiachiri quebrou o resto de sossego, se é que ainda existia algum naquele lugar que semelhava uma cozinha com o fogão de lenha aceso ao meio dia. Nosso historiador acendeu um cigarro, começou a soltar baforadas para o alto. Uma mulher gritou repreensão.

-Ô Chiachiri, tenha paciência. Respeite ao menos a igreja.

- Estou respeitando. Isto aqui é incenso.

O tempo vai passando e continua a me impressionar alguns predicados do Chiachiri: sua rapidez mental, seu humor, sua capacidade de enxergar, apesar da cegueira.

De sua agudeza mental e de seu estranho humor ele deu nova prova semana passada.

Acompanhados por membros da Academia Francana de Letras, Chiachiri, Carlos Assumpção, representantes de Alfredo Palermo e eu fomos receber homenagem na cidade de Ribeirão Preto.

Antes do início da cerimônia, apresentavam-nos escritores daquela cidade e da região. Era-me impossível guardar o nome das pessoas que apareciam, davam-nos um abraço, cumprimentavam-nos, desapareciam no salão enorme. De repente, Chiachiri abraçou alguém efusivamente, apoiou ambas as mãos em seus ombros, repetiu muitas vezes em voz muito alta.

- Nossa! Que maravilha! Como você remoçou! Você está outro, muito remoçado!

Os companheiros ficamos boquiabertos, perguntando-nos se o nosso historiador conhecia, de fato, a pessoa que cumprimentara tão entusiasticamente.

Boquiaberto, eu engolia dúvidas.

- Mesmo que ele conheça o homem... Como é que ele pode dizer que o sujeito remoçou? Afinal, ele enxerga muito menos que eu que não enxergo nadinha de nada.
 

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