O ramo da mendicância

Por: Mauro Ferreira

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A ação deflagrada pela ação da Defensoria Pública para coibir possíveis abusos aos direitos dos moradores de rua, que estão sendo detidos por vadiagem pela polícia, contravenção prevista no Código Penal, causou-me desconforto e preocupação, pois um subproduto desta ação remete à questão da cultura.

Moradores de rua, mesmo os que não fazem uso de drogas ou bebidas, são ignorados pela maioria em nossa sociedade, especialmente os motoristas que se constrangem ou se incomodam com suas investidas pidonchas. Também são ignorados pelo governo Sidnei Rocha, cuja política foi tão fracassada que precisou o Judiciário intervir para algo ser feito. Os pedintes não existem para a maioria porque não trabalham, estão à margem da sociedade de consumo, são incômodas chagas vivas de uma sociedade onde ter é cada vez mais importante que ser. Talvez por isso tão poucos possam incomodar tanta gente.

Mas pedir a quem tem não é prática corriqueira, mesmo entre os mais abastados? Tem um colunista que publica até uma relação fixa de desculpas de quem foge dos seus pedidos: constrangido, o cara sai pela tangente dizendo que foi levar a sogra ao médico, ao rancho ou ao banco. Há, por todo lado, notícias de leilões milionários, rifas, jantares, pizzas, feijoadas, telefonemas educados feitos por gente que quer ajudar o próximo dando seu tempo e trabalho voluntário, dedicando-se e doando-se a estas nobres atividades necessárias à coletividade. Mas continua sendo mendicância.

Preocupa-me nesta questão a situação dos artistas. Pois vadiar é essencial à arte. Sem tempo livre, numa sociedade capitalista, difícil produzir obras que elevem o espírito humano através da arte, mesmo sabendo que arte é trabalho duro, muito mais suor que inspiração. Artistas escrevem, desenham, pintam, compõem, cantam, interpretam, alguns mais bordam até que pintam, distantes da indústria cultural, que é outra coisa, é negócio. Quem faz arte por um íntimo desejo e impulso criativo, sem saber se aquilo vai ou não gerar renda, não tem onde se amparar, tem que pedir para sua obra ser veiculada.

Eu, pelo menos, tento vadiar o mais possível, principalmente naquele sentido consagrado por Jorge Amado em seus romances. A vadiagem artística leva à mendicância. Ainda precisamos de mecenas, de gente que acredita na arte que fazemos. Vivo neste ramo nada novo da vadiagem, ainda não percebida pela polícia: o da mendicância criativa, passando o pires a empresários para manter as atividades e as múltiplas ações culturais do Laboratório das Artes. Do jeito que a repressão à vadiagem está caminhando, por via das dúvidas, quando vejo o carro da polícia por perto vou saindo de fininho, finjo que não é comigo. Para não ser enquadrado, justamente, por vadiagem. 

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