O legal e o real

Por: Chiachiri Filho

Existe um Brasil legal, ideal, justo, defensor dos direitos humanos e das minorias, um Brasil onde o sol da liberdade resplandece com seus raios fúlgidos aquecendo e dourando os seus cidadãos. Esse país de nossos sonhos consubstancia-se na Constituição Federal e desdobra-se nas leis ordinárias, leis perfeitas , protetoras dos cidadãos e da sociedade.

Há também um Brasil real, um país de miséria, ignorância, obscurantismo, criminalidade e desesperança. É o Brasil da pobreza e da indigência, dos cortiços, das favelas, dos becos, das praças e ruas mal iluminadas, das sarjetas imundas, das cracolândias.

O Brasil legal está sempre procurando enquadrar o Brasil real. Porém, nem sempre consegue e, ao invés de resolver o problema, contribui para o seu agravamento.

Veja-se, por exemplo, os casos das cracolândias e dos moradores de rua. A lei protege-os no seu direito de ir e vir, no seu livre arbítrio, na livre escolha de seu rumo e destino. Os direitos a eles concedidos e protegidos, em vez de os beneficiarem, aprofunda a sua miséria. Os drogados das cracolândias tornam-se mais viciados, mais dependentes, mais desgraçados. Os moradores de rua, resguardados e defendidos os seus direitos de ir e vir, de viver de acordo com sua livre vontade e escolha, afundam-se cada vez mais na miséria, na exclusão social, na decadência moral e física. Recusam, obstinadamente, a ajuda das instituições sociais dos municípios. Preferem a penúria das ruas, a sujeira, a promiscuidade, o álcool e as drogas que destroem o seu caráter, a sua vontade soberana, a sua lucidez.

Cumprida a lei justa, perfeita e bem intencionada a realidade não se altera: continua perversa, degradante, desafiadora. Muitas vezes, mesmo inconscientemente, o objetivo não é resolver o drama humano. É defender um princípio, uma teoria, uma posição ideológica. É, simplesmente, cumprir a norma jurídica que , ao invés de solucionar, complica a situação.

E assim, prezado leitor, lá vai o Brasil descendo a ladeira, dourando a pílula, jogando o lixo por baixo dos tapetes e fazendo leis “para inglês ver “.
 

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