Memória de elefante

Por: Sônia Machiavelli

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“O corcunda, instalado à esquerda, chupava ruidosamente pastilhas para a garganta disseminando no ar um aroma de inalações de asmáticos: se eu fechasse com força as pálpebras por um segundo poderia supor-me sem esforço no quarto de Marcel Proust, escondido atrás da pilha de cadernos manuscritos da Recherche du Temps Perdu: c’est trop bête, assim costumava ele definir o que escrevia, je peux pas continuer, c’est trop bête. Querido tio Proust: o papel de parede, a lareira, a cama de ferro, a tua difícil e corajosa morte: mas achava-me na realidade instalado a uma mesa de jogo do Casino, e a solidão roía-me por dentro como um ácido doloroso: a ideia da casa vazia apavorava-me, a solução de dormir na varanda fazia-me gemer de antecipados lumbagos”.

Este é um trecho do antepenúltimo capítulo de Memória de Elefante, do ficcionista português António Lobo Antunes. Se há um romance de autor contemporâneo que exige do leitor repertório de muitas leituras artísticas e atenção desmedida a cada parágrafo, é este. O estilo barroco, marcado por frases sinuosas, hiperbólicas, não raro rendilhadas; a história que não acontece do modo tradicional e não deslancha ao longo das 24 horas em que o autor tenta contá-la; e as muitas referências, não raro veladas, a autores de diferentes culturas são três dos muitos complicadores desta literatura que impacta, mas cansa; agrada, mas exaspera; desperta admiração, mas pode deprimir. Lembra literatura para escritores e leitores a quem agrada a Clarice Lispector de O lustre, - assim me parece o livro de estreia de um ficcionista que começou escrevendo sobre si, a se considerar que ele também, como seu personagem, é um psiquiatra que vive em Lisboa, esteve em Angola na chamada Guerra do Ultramar, e se separou da mulher que continuou a amar e com quem teve duas filhas.

Difícil imaginar que alguém em busca de enredo, movimento, ação e fatos, desse tipo tão comum em nossos tempos velozes, se interesse pela saga do psiquiatra português que ao abandonar mulher e filhas pequenas, depois de ter passado um tempo em serviço militar, fica remoendo culpas, lastimando seu entorno português, buscando entender quem de fato é como ser humano. Toda a narrativa, que dura um dia, à maneira de Ulisses, de Joyce, parece ser pretexto para que o narrador, ora em terceira, ora em primeira pessoa, busque conhecer-se. O método é custoso, caprichoso, sofisticado enquanto dura. Mas constitui grande literatura, no viés de um Mário de Sá Carneiro ou de um Cardoso Pires, para citar os precursores de um modo de fazer literatura a partir do questionamento do eu e do estar no mundo. À pergunta “Quando é que eu me fodi?”, reiterada no romance, o narrador responde com revisitações à infância, à juventude um tanto clandestina, à África bélica, à mulher que amou e continua amando, às ‘miúdas’ que só vê nos finais de semana, aos pacientes do hospital psiquiátrico onde a rotina é árida, cinzenta e despossuída de qualquer alegria. Esta última palavra, aliás, e o que ela significa em profundidade, se aparece no livro está por demais escondida para que seja captada.

Denso ao extremo, o estilo com que Lobo Antunes estreia na ficção reflete, mais do que mergulho no nevoeiro, busca por lucidez, pela interpretação da realidade, por um sentido de vida: “Preciso de qualquer coisa que me ajude a existir” é a frase que fecha o romance. Este estilo que inaugura nas letras portuguesas nova forma de contar uma história, vai se depurar, o que mais tarde se verá quando o escritor publicar outros romances. Em Memória de Elefante é exercício que lhe permitirá encontrar a voz singular que assumirá nuances mais claras e transparentes nos anos subsequentes.

Se a procura é pelo sentido da existência, a opção pela quase ausência de enredo mostra-se coerente. É a memória prodigiosa do narrador que o municia de informações acumuladas desde a infância, habilitando-o a transitar com facilidade do passado ao presente e vice-versa, através das pontes que ergue com palavras. Como a rememoração que permite as divagações não obedece à ordem linear, o discurso se torna difícil de seguir, ou, pelo menos, exige atenção para que não haja perda de compreensão do todo. É esse tipo de escrita que permite ao narrador oscilar entre o que conta e o que é contado, ou seja, entre a terceira pessoa que olha com certo distanciamento e a primeira que tenta se relatar.

Memória de Elefante elege a angústia como tema e não aponta qualquer caminho esperançoso para o leitor. A pergunta que o protagonista se faz o tempo todo— “O que faria eu se estivesse no meu lugar?”— não encontra qualquer resposta ao longo das 158 páginas. Talvez esta não exista.

Serviço
Título: Memória de Elefante
Autor: António Lobo Antunes
Gênero: Romance
Número de páginas: 158
Coleção : Folha São Paulo

O Anti-Saramago

Lobo Antunes
Comentando o lançamento de Memória de Elefante no Brasil pela Coleção Folha, o colunista João Pereira Coutinho disse que “António Lobo Antunes é o anti-Saramago por excelência”. E enumerou as razões de sua apreciação: Antunes perdeu o Nobel para seu compatriota; faz uma ficção servida por várias vozes, ao contrário do autor de Ensaio Sobre a Cegueira, geralmente centrado em um narrador onisciente; e se contrapõe a este, pela escolha de Portugal como “matéria prima de sua reflexão romanesca”. Maior escritor vivo de língua portuguesa, para a revista Vogue, e grande desbravador da psique humana, para Los Angeles Times Book Review, Lobo Antunes é dos autores mais conhecidos e prestigiados em Portugal.

Nascido em 1942, em Lisboa, Antunes se formou em medicina com especialização em psiquiatria. Entre 1970 e 1973, durante 27 meses, serviu como médico tenente na fase final da cruenta guerra colonial em Angola. De volta a seu país utilizou a experiência para assunto e tema de vários livros, inclusive este resenhado ao lado.

Seu êxito na literatura foi tão grande, desde a primeira obra publicada, que deixou a medicina para ser apenas escritor. Vive em Lisboa.

Prossegue escrevendo e em contínua renovação linguística. Seus últimos livros, Exortação aos crocodilos, Não entres tão depressa nessa noite escura e Boa tarde às coisas aqui de baixo , foram recebidos com aplausos pela crítica e pelo público. O escritor é muito lido também na França.
 

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