O tesouro recuperado

Por: Maria Luiza Salomão

“Por seus escritos inspirados que, enquanto crescem em audácia e penetração, exemplificam os ideais humanitários clássicos e as altas qualidades de estilo” (justificativa do Prêmio Nobel a Hermann Hesse, que também recebeu o Prêmio Goethe, no mesmo ano de 1946).

Quando acordei em Lugano, um dia, ainda não sabia o que me reservava o cantão italiano da Suíça! Entre lagos e montanhas, festivais de música, etc., muito perto dali, em Montagnola, morou, por décadas, um autor que enriqueceu minha juventude Hermann Hesse.

A língua foi o maior obstáculo para chegar ao Museu, para descobrir o ponto do ônibus intermunicipal para Montagnola - o “Sarengo Afra”. Simplesmente do Nada, uma garota, em torno dos seus 11 anos me pergunta em um límpido inglês “can I help you?”. E como ela ajudou! Sentada ao nosso lado no ônibus, a comer sanduíche de salame, saída da escola em Lugano e voltando para Montagnola. Serena, longos e lisos cabelos castanhos dourados, magra, alta, mãe americana e pai suíço-alemão, ela avisa o motorista sobre nosso destino. Encontramos o museu...fechado. Mas tínhamos a sorte por companhia: a diretora do museu seria entrevistada por um jornalista e nos abriu o Museu!

Viagens podem ter diferentes vértices (e vórtices). Umas têm um prisma estético, outras são movidas a Paixão. Algo me impulsionou, inconscientemente, para este lugar, em um particular estado d´alma.

O ônibus subiu a “montanhola”, até uma simpática pracinha, bem ao cimo. A casa-museu se situa em Ra Cürda, em uma vila, entre sobradinhos gêmeos enfileirados às margens da rua de pedras cinzentas, com flores nas janelas. Hesse cultivava uma horta e um jardim, de chapelão de sisal. Passeava na floresta (e pintava aquarelas), que deveria ser ainda mais ampla e densa ao chegar, em 1919. Morreu em 1961, na casa adaptada para apresentação de palestras e filmes. Hesse fugiu da Alemanha, por conta da I Grande Guerra, para a Itália, mas saiu quando Mussolini subiu ao poder, assumindo cidadania suíça. Escrevia 150 páginas ao dia, só de cartas aos leitores, e recebia visitas de pessoas do mundo todo.

Criou uma literatura voltada para a sensibilização da espiritualidade, para a contemplação da natureza, para o reconhecimento de uma vida interior, bem ao contrário do espírito germânico do seu tempo. Espírito atormentado, inquieto, Hesse nasceu de pais missionários protestantes, e soube recriar o mundo interior de um adolescente, o metamorfosear de criança a homem adulto, principalmente quando a educação tem um peso religioso (não importa qual a religião praticada). Relendo Hesse, eu me deparo com uma densidade sentida “um dia”. Hoje, com maior experiência de vida, adenso maiores significados. Os dilemas do “tornar-se humano”, ao longo dos séculos, milênios, Hesse os enfrenta no seu núcleo duro e complexo: nascer, assumir a sexualidade, envelhecer e morrer. No entremeio da trajetória, individual e comum a todos, a anciã batalha humana entre o Bem & Mal.

Algumas viagens são como uma corrida atrás de um tesouro que enterramos no fundo do nosso coração, esperando recuperá-lo. Reencontrei parte do meu: reler Demian, com maior amplitude de sentir.
 

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