Querida Sônia

Por: Luiz Cruz de Oliveira

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Quando a escola Nair Martins Rocha foi inaugurada, eu e a Sônia Menezes Pizzo tínhamos vinte e um anos a menos. Apesar do tempo que passou, eu me lembro nitidamente daquela manhã de fevereiro, da solenidade, das ocorrências daquele momento. E a memória permanece viva por muitos motivos.

No palanque montado à porta da escola, salientava-se a figura maiúscula de Maurício Sandoval Ribeiro, então prefeito municipal. A seu lado estavam autoridades locais e dirigentes do Sesi/Serviço Social da Indústria, da capital paulista. Após todos entoarem o Hino Nacional, o mestre de cerimônia discorreu sobre a importância da inauguração de mais uma escola na cidade, falou sobre a escolha do nome, leu pequena biografia da homenageada e convocou-me para falar em nome dos ex-alunos da professora Nair Rocha.

Minha fala foi lírica e honesta: confessei o meu primeiro amor por uma mulher, por aquela professora muito sábia, muito enérgica e, ao mesmo tempo, muito carinhosa, por quem provavelmente se apaixonaram também todos os meus colegas de classe.

Ao descer do palanque, fui abordado por Patrícia. A colunista fazia a cobertura da festividade e estava deveras emocionada e, aos meus olhos arregalados, mostrou a franqueza de sempre, dizendo ter inveja de minha professora. Só entendi a mulher quando ela externou a convicção de que não seria homenageada, depois de morta, com palavras tão belas.

Disse-lhe, então, que não gostaria de sobreviver a ela, mas, caso isso ocorresse, eu tentaria escrever um texto digno dela, por ocasião de seu passamento.

A corrida do tempo trouxe muitos sucessos à Patrícia, trouxe algumas perdas à Sônia, duas delas das mais doloridas.

Com minha voz rude e com o meu verbo intransitivo, procurei mostrar-lhe que estava próximo nas retas e nas curvas agudas do seu caminho.

Os dias e os anos correram.

Hoje me considero desobrigado do compromisso assumido naquela tão distante manhã de 15 de fevereiro, à porta de uma escola. Sinto-me desincumbido do trato porque, hoje, minha homenagem seria banal, talvez até ridícula.

A querida Sônia já está plenamente homenageada.

Esta semana, a escritora Lúcia Helena Maniglia Brigagão promoveu o lançamento de seu livro Querida, biografia da colunista social Patrícia, da mulher Sônia Menezes Pizzo.

Penso que uma biografia é uma bela homenagem e atesta, no mínimo, o reconhecimento da importância do biografado. Neste caso, reconhecimento, gratidão e carinho.

Por isso, ao tempo em que também parabenizo Sônia, agradeço à autora da obra que faz justiça à minha querida amiga e me desobriga de tarefa talvez superior a meus recursos.
 

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