Sarah e Clara

Por: Mauro Ferreira

Os caminhos da vida são insondáveis. Como prever os fios do destino que nos enredam, como os de Ariadne, ou que entrelaçam nossas vidas? Clara e Sarah são amigas desde a infância, meninas sem grandes posses que viveram no bairro e colônia judaica do Bom Retiro, em São Paulo. Estudaram na Casa do Povo, instituição progressista judaica com forte influência do Partido Comunista nos anos 1950 e 60, cuja sede foi projetada por Jorge Wilheim no início de sua carreira. Clara tornou-se trotskista na juventude. Ambas estudaram arquitetura em plena ditadura e militaram contra ela.

Primeiro, conheci Clara, no início dos anos 80. Lembro nitidamente quando conversamos pela primeira vez. Telefonei num sábado pela manhã, acho que a acordei em seu apartamento na Barra Funda, convidando-a para fazer uma palestra aos arquitetos de Franca. Ela era professora do curso de arquitetura da PUC de Campinas. Não me conhecia, mas topou vir. Seu entusiasmo me levou junto, fizemos política na direção do Sindicato Estadual dos Arquitetos e nos tornamos companheiros no PT. Dançarina exímia que aprendeu até tango, Clara chegou a carregar o arquiteto Chico Sad, num congresso de arquitetura em BH, para dançar numa gafieira.

Depois, fiz campanha para Clara eleger-se vitoriosa deputada estadual pelo PT e, em seguida, à Constituinte. Sua marca registrada era uma espécie de máscara do Zorro que usava para dormir em qualquer lugar que fosse possível, em desgastantes e cansativas campanhas políticas. A derrota na eleição para deputada federal constituinte a levou a sair da linha de frente e assumir a retaguarda das caravanas da cidadania do Lula. Tornou-se assessora pessoal do presidente, o que ainda faz com fidelidade até hoje no Instituto Lula.

Sarah apareceu depois, nos anos 90. Professora do curso de arquitetura da USP, veio a trabalho para Franca trazida pelo Nabil Bonduki, para assessorar o novo Plano Diretor da cidade quando fui secretário de Planejamento. Já a conhecia do Sindicato dos Arquitetos, mas era distante e discreta. Nossa amizade aprofundou-se ao ponto dela assumir risco profissional que poderia prejudicar sua carreira de livre-docente universitária: o de dar orientação, rumo e rigor científico a um aluno caótico como eu, permitindo-me defender com sucesso uma tese de doutorado na mais importante universidade do país. Sarah é hoje uma das pesquisadoras da história do urbanismo mais respeitadas do país.

Clara diz que se identifica com as tecelãs: ela tece redes, mas de ação e transformação social. Dia destes, na capital paulista, no simpático restaurante La Frontera, com frente para os velhos muros do cemitério da Consolação e sem temer os arrastões, tantos anos vividos, tantas realizações conjuntas e tantas histórias entrecruzadas depois, estivemos juntos novamente para brindar a vida e a amizade que valem a pena e expressar minha admiração e carinho por duas mulheres tão especiais.

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