Adeus à crise

Por: Luiz Cruz de Oliveira

175243

Passei um tempão escutando só notícia ruim crise na Europa, crise nos Estados Unidos, crise na Argentina, crise na Francana, crise no basquete... Sentava num banco da praça, e havia alguém garantindo:

- Agora é certo. Esse dinheiro lá da Europa, esse tal de euro vai acabar... Todo mundo vai ter que usar o dinheiro dos gregos, nem sei como é que chama. Dizem que a situação aqui no Brasil via piorar muito...

Levantava-me, mudava de banco, as previsões apenas mudavam de tom e de roupa.

Estão falando que o governo vai baixar o preço do dólar, que ninguém mais vai vender sapato. Vocês vão ver... Vai ser só desemprego aqui em Franca. Vocês vão ver... A Praça Barão vai ficar cheia de gente desocupada.

Deveras preocupado, levantava-me novamente, ia lá para a porta do café. Encostado na parede, prestava atenção na conversa dos outros. As novidades continuavam preocupantes.

- Gente, se essa guerra continuar, não sei não. A gente só vê falar em turco matando turco, o ouro deles sumindo... A televisão mostrou cidades pegando fogo, gente morta, gente ferida dentro das igrejas. Diz que o petróleo deles está virando cinza, que todo dia queima um poço de petróleo. Diz que, se continuar assim, nós aqui no Brasil podemos até ficar sem gasolina...

Na porta do outro café, persistia a mesma música, ocorria discussão, os aposentados quase se pegavam no tapa.

- A coisa vai ficar feia...

- Como? Vai ficar? Deixa de ser besta. Vai ficar, não. Já está muito pra lá de feia. Só não digo que está preta porque agora a gente não pode mais falar isso, é crime. Mas que está preta, isso está.

Meu pai sempre me ensinou que a voz do povo é a voz de Deus. Então, diante de tantas e tão sábias análises da conjuntura econômica atual, não tive mais dúvidas. Fiz o que o meu pai faria: mudei a fivela de buraco, apertei o cinto pra valer.

Em casa, comecei a andar no escuro, a ligar o televisor somente na hora da novela. Desliguei ainda da tomada quantos aparelhos eu pude. É certo que as trombadas em móveis e em quinas de portas me valeram muitas marcas roxas pelas pernas, pelos braços, pela cara. Mas o arrocho na economia doméstica valeu a pena: ao final do primeiro mês, eu havia economizado quatro reais e setenta e oito centavos só na conta da energia elétrica. A redução da sobremesa à metade, a leitura do jornal somente aos domingos e outras economias menores resultaram em acentuada redução dos gastos.

Foi assim que, após alguns meses de contenção e esforço, consegui superávit. Paguei água, luz, telefone, todas as prestações anotadas nos respectivos boletos e, para meu júbilo, restaram-me treze reais.

Treze reais.

- Agora alcanço minha independência financeira, pensei.

E não pensei duas vezes. Só uma. Fui pra rua, à procura do Ronan, meu futuro sócio.

Como de praxe, encontrei-o na sua segunda casa, a Praça Barão. Como de praxe, tentava engambelar algum desavisado. Salvei o desconhecido, levei o Ronan até um canto da praça, mostrei-lhe minhas ideias e meu dinheiro. Como de praxe, ele se entusiasmou.

- Claro, claro. Vamos fazer isso e vamos ganhar muito dinheiro. E você começou com o pé direito, com o número da sorte. Treze reais. Veja que sorte, começar logo com o treze. Treze é um número cabalístico.

- O que significa isso?

- Ora, é o número utilizado nas seitas, em nos estudos de Cabala, nos estudos esotéricos.

- Cabala, esotérico... afinal o que é que significa isso?

- Não sabe? É o estudo que estuda a disposição dos astros, que estuda o seu alinhamento no espaço um atrás do outro, direitinho. É isso que determina a sorte diferente das pessoas. Você está com muita sorte.Deixe o resto por minha conta. O treze é o galo. Vou agora mesmo lá no Mirtinho, vou jogar os treze reais no galo - no terno e na milhar, vou jogar do primeiro ao quinto, inclusive invertido. Hoje a gente arrebenta a boca do balão, a gente vai quebrar a banca. Tem bicheiro que vai fechar a sua banca. Ah, aguarde só...

Deixei o dinheiro com o sócio, fui para casa. Naquela noite sonhei com planetas em fila indiana, sonhei com um galo enorme, de crista vermelha, de enormes esporas.

No dia seguinte, assim que me desincumbi das obrigações, rumei para a rua. Encontrei o meu sócio cochilando debaixo de uma árvore da Praça Barão.

- Ronan...

Ele acordou com meu grito e, meio desorientado, enfiou a mão no bolso da calça, retirou um papelzinho todo ensebado, foi mostrando e explicando o significado da seqüência dos números anotados.

- Você nem vai acreditar. Parece que balançaram o céu, até as estrelas perderam o rumo. Você nem vai acreditar. Veja só: no primeiro prêmio, deu cavalo; no segundo prêmio, deu cachorro; no terceiro prêmio deu vaca; no quarto prêmio deu macaco; e no último prêmio deu burro. Como é que pode? Deu tudo quanto é bicho, só não deu galo. Só tem um jeito agora: a gente espera o mês que vem e joga outra vez.

Virei as costas, voltei para casa bufando.

Entrei, acendi a luz da sala, embora a claridade fosse intensa. Entrei no banheiro, religuei o chuveiro e tomei um banho demorado, muito demorado.

Afinal, depois de três meses, eu estava com uma saudade danada e precisava de uma água quentinha no lombo.
 

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras