A esperança vem quando há entrega

Por: Maria Luiza Salomão

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O filme Coisas que Perdemos pelo Caminho traz a luminosa esperança no trabalho psíquico que é preciso desenvolver quando sofremos duras perdas, principalmente de pessoas queridas.

Audrey (Halle Berry) é uma mulher que sofre uma perda traumática. O seu marido, Brian (David Duchovny), sai para comprar sorvetes para as crianças, o casal interrompe um prelúdio amoroso, certos de poderem continuar a transa depois, e Brian não volta mais...

Jerry (Benicio Del Toro) é viciado em heroína e tem Brian como o seu único amigo, única ligação saudável com a vida. Os dois amigos se encontram longe de Audrey, que não aceita Jerry. Após a morte de Brian, Audrey, ainda chocada com a viuvez precoce, convida Jerry a morar com ela e os dois filhos. Jerry aceita, parecendo empático com o estado de choque de Audrey, ou também pela sua decisão de largar a droga.

Os dois, Audrey e Jerry, vão trilhar o caminho por onde perderam Brian. Mas sua ausência também se torna ocasião para descobertas das capacidades pessoais dos dois, atribuídas a Brian. Audrey vai se comportar com Jerry de um modo que Brian não o fez. Jerry vai se relacionar com os filhos do casal, e com a própria Audrey, e não será um “substituto” de Brian.

Brian, bom marido, amigo, pai é o elo comum entre todos. Audrey percebe que Jerry não só recebia ajuda de Brian. Jerry, quieto e observador, sem as drogas, demonstra lucidez e empatia nos relacionamentos afetivos. Há um tênue limite entre a Patologia e a dita “Normalidade”. Audrey parece drogada (pelo choque). Jerry, “limpo” das drogas, depois da morte do amigo, é capaz, enfim, de acordar para a vida, renascer. Precisa, contudo, para não recair, de alguém que confie no “bom” que existe dentro dele.

Audrey, confusa, é cruel com Jerry, que se torna o seu “saco de pancadas” pela dor da perda. Mas ela vê o que viu Brian no amigo -Jerrry é sensível e inteligente.

Coisas desaparecem sem vestígios, em incêndios, terremotos. Mortes ou separações entre seres que desenvolveram intensos laços afetivos não se perdem. Algo ocorre, no processo saudável do luto, que faz com que aquilo que investimos nas pessoas (ou nas atividades escolhidas) permaneça - transformado - em um canto da alma. As perdas se transformam em ganhos, quando as aceitamos.

Os poetas sabem deste estranho paradoxo. Drummond finaliza sua poesia Ausência com os versos: “a ausência é um estar em mim/e sinto-a branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,/ que rio e danço e invento exclamações alegres,/ porque a ausência assimilada, ninguém a rouba mais de mim.” Esta é a esperança, na entrega, a arte final de um imenso esforço, do trabalho psíquico do Luto, de construção de um espaço-continente para a Dor, na confiança de que possamos preservar “o bom”.

O tema, Luto e Drogadição, desenvolvido neste filme, foi escolhido pelo grupo do Cinema e Psicanálise, em conexão com o programa da Semana Ação FRANCA pela PAZ, incluída no Calendário oficial de Franca, para marcar o Dia de Combate às Drogas, 26 de junho. Vamos tentar multiplicar a corrente de pessoas que queiram (ou precisam) compreender o que leva alguém a se drogar. Auxiliar, do mesmo modo, as famílias dos drogados a criarem espaços de aconchego, de apego em nós afetivos, alternativas eficientes ao vazio existencial, à perda da dignidade humana daqueles que vagueiam em um longo, negro e turbulento caminho, que perderam a fluorescente esperança.

Serviço
Título: Coisas que Perdemos pelo Caminho
Gênero: Drama
Onde:Centro Médico de Franca
Quando: Hoje, às 14:30h

Diretora

SUSANNE BIER
A diretora dinamarquesa, de 52 anos, diz: “(...) a esperança é a coisa mais importante. (...) Não que eu não saiba que o mundo pode ser cruel, mas não vejo por que jogar isso na cara da plateia.”

Os seus filmes: Um Mundo Melhor, 2010, Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, o tema é o bullying; Depois do casamento, 2006, seguimos o desatar sofrido de um nó na família, de modo surpreendente. Coisas que perdemos pelo caminho, 2007, único filme americano; Entre Irmãos, 2004, o impacto do trauma de guerra vivido pelo personagem, em si e na família, quando retorna à casa.

Em seus filmes, os personagens (pessoas comuns) vivem situações de extrema tristeza e catástrofe. Mas poderíamos nos identificar com o pensar, agir, falar, sentir vivido por eles, caso estivéssemos em situação semelhante. A diretora parece ter um talento para capturar a intimidade, sem psicologismo ou pieguice, uma verdadeira capacidade para a Intimidade, rara nos dias de hoje, na Arte ou na Vida. 

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