Drogas: desamparo do sujeito

Por: Vanessa Maranha

O uso de substâncias psicoativas e narcotizantes se dá desde que o homem primitivo, na lida com as plantas pôde experimentar os efeitos dos seus alcaloides. Em cada tempo o uso de alucinógenos cumpriu uma função. Lá atrás era ferramenta de contato com os deuses e ocorrências de seu pensamento mágico, associados a rituais místicos e reiteração de pertença. Muito posteriormente, como foi o caso do absinto, serviu ao propósito ou pretexto de potencializar a criatividade. Chegou, na década de 60 do século passado, ao status de signo de contracultura, mas, ainda, com delineações tribais.

Se é que se pode estabelecer tal correlação, historicamente, a drogadição vinha respaldada por um discurso, um lema, uma lógica, ainda que torta. Segue, contudo, ao que parece, dentro do que o filósofo francês Michel Foucault denominou ‘forma de subjetivação’. Um jeito de estar e ser no mundo, mas, agora, com outros contornos. Esse conceito vem sendo desdobrado pelo psicanalista Joel Birman e pede leitura cuidadosa. Diz ele que o século 21 situa-se num momento “onde o desamparo do sujeito se recoloca, assumindo formas vigorosas e desesperantes. O ‘desamparo’ seria a outra face da modernidade. Projeto que prometeu colocar o sujeito em uma postura de domínio absoluto do mundo e de suas ideias, mas gerou um sujeito à deriva, cativo de seu reiterado fracasso de fazer face às exigências desse mesmo projeto”. O que resta então ao sujeito não singularizado senão a vivência na ordem mais primária? O humano situado em seu anteparo corpóreo de sensações. O discurso da drogadição hoje grita, claramente, um não-discurso.
Numa estereotipia, corpos infantilizados e que às vezes se fazem atravessar por metais, desenhos, inscrições; epidermes impressas ou ‘lancetadas’ por numa escrita externa, alternativa à impossiblidade de escrever-se e singularizar-se; mentes anestesiadas e alienadas como mostra de sua ‘condição psíquica torturada’. A discussão é longa!
 

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