João é seu nome

Por: Maria Rita Liporoni Toledo

Naquela fazenda de café, imigrantes italianos moravam numa colônia e eram quase todos parentes ou amigos, pois tinham vindo tentar uma vida melhor na América, como eles chamavam a terra nova que os esperava.

Era o mês de junho, um frio intenso, mas que não impedia a realização de grandes festas nos dias dos santos padroeiros. A colheita dos alimentos básicos tinha acabado e as hortas estavam repletas de cará, abóbora, gengibre, batata doce e amendoim. O fubá e o polvilho, bem guardados, esperavam para serem transformados em quitutes saborosos. Bem em frente à casa grande, os preparativos para a festa de São João já tinham começado. Lenha para a fogueira, bambus para os arcos que seriam colocados na entrada, enfeitados com as flores alaranjadas dos cipós de São João. A bandeira do santo, com sua imagem, era ornamentada dentro de casa, pela própria fazendeira, muito devota, que se esmerava em colar tirinhas de papel de seda, flores de crepom e fitas coloridas. Prendia galhos de laranja madura, conforme a tradição, deixando-o pronto para ser amarrado em um mastro e levantado na hora da festa, sob vivas e intenso foguetório.

Angelina observava todo aquele movimento, novidade para ela, seu marido e os seis filhos nascidos na Itália. O sétimo e primeiro brasileirinho era aguardado para este mês. Mulher corajosa, rija, alegre, transpôs o Atlântico, e, agora, enfrentava as viçosas lavouras de café, de um verde tropical, cuja altura dos pés encobria um homem. A colheita do café não tinha terminado; como meeiros eles tinham interesse em finalizá-la e ela ia ,como os outros, atrás do fruto rubro e valioso. E foi no dia de São João, que Adelina sentiu as dores do parto e, lá mesmo, no chão duro, forrado apenas com os panos de colher, embaixo de um pé de café, sob a sua sombra, que nasceu seu filho tão esperado, forte e saudável. Levada para casa, ela acomodou-se sob a assistência das comadres. À noite, repousando em seu leito, lembrou-se de sua terra natal e do nascimento de seus outros filhos, tudo tão diferente, mas, ouvindo o som dos sanfoneiros, o espocar dos fogos, o crepitar da fogueira, Angelina sentiu-se certa de que ali estava sua nova pátria e a de seu filho. Pegou-o nos braços e deu-lhe o nome de João, pedindo a benção do santo para que ele fosse um homem de bem.
 

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