Tudo vai ficar bem

Por: Lucileida Mara de Castro

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Estou tão cansada... Em momentos assim, minhas mãos procuram os livros. Talvez porque para mim sejam mágicos; de um encantamento e de uma força tal que permitem à mente, alma e corpo atingirem a dimensão do improvável, do inalcançável, da delicadeza plena, da completude. Neles, tudo é possível, absolutamente tudo. Assim, o fato de tudo poderem conter faz com que exista em algum lugar, nas ideias de um autor qualquer, algo que seja meu ou que seja eu.

Borges Luis Borges filosofa que estamos presos em uma biblioteca infinita e eterna, que guarda absolutamente tudo passado, presente e futuro em uma ordem desordenada através da qual as coisas, vez ou outra, repetem-se.

Surpreende-me, deliciosamente, ler o conto “O outro”, do próprio Borges, no qual ele velho, estando em Cambridge encontra-se com ele bem mais moço, vivendo em Genebra. Velho e moço conversam sobre os seus. Entretanto, embora íntimos, são dois.

A experiência poderia se repetir comigo? Na ordem desordenada do universo, poderia eu, em algum momento da minha vida vivenciar algo assim? O que a mulher madura que sou diria caso pudesse, de alguma maneira, conversar com a menina que fui?

Se eu a encontrasse, sentadinha nos tamboretes da casa de minha avó, bebericando leite quente feito com açúcar queimado jeito caseiro de espantar a tosse e olhasse para os olhos míopes da menina que tentava entender a vida, o que lhe diria? Mal a pergunta me vem à mente, vislumbro-me menina bem ali, diante dos meus olhos.

Olho-a com carinho que mãe olha a filha. Vejo suas mãos desastradas, atento para a letra irregular, percebo-lhe os medos. Sinto vontade de dizer que a amo, de tomá-la em meu colo, vontade de niná-la e dizer-lhe coisas que possam lhe permitir um futuro menos árduo. Sinto-me tentada a preveni-la de situações que a magoarão e aconselhá-la a se afastar desta ou daquela armadilha que o destino lhe trará. Nada faço.

Estamos frente a frente, são tantas coisas a serem ditas, mas simplesmente não consigo e me limito a observá-la. Vejo nela algo que trago em mim até hoje: um quê de rebeldia mesclada com uma imobilidade hipnótica; como o pássaro cujo coração anseia pelo voo, mas o olhar dominante da cobra o prega ao solo. Tenho muita vontade de libertá-la, de lhe ensinar a ir sem temores, mas não posso.

Claramente surpresa com minha presença, a menina quebra o silêncio. Parece querer saber quem eu sou. Sente-se à vontade, fala-me das coisas que gosta, conta-me da avó, da tia, da mãe. Mostra-me a boneca que ganhara há pouco. Meus olhos brilham intensamente não me recordava o quanto minha amada boneca era linda...

A menina, ordinariamente tão só, sente que tem em mim uma companhia: conta-me da escola, fala que está feliz por estar aprendendo a ler; apresenta-me os presentes dados pela nossa mãe e, ao vê-los, preciso virar o meu rosto para que a criança não me veja chorar: minha mãe, tão pobre, trazia-me brinquedos lindos, decerto para que, quando eu com eles brincasse, estivéssemos mamãe e eu , juntas.

A criança abre a sacola em que guardava, para as brincadeiras de casinha, um joguinho de chá completo. Estendo minha mão com a pretensão de segurar uma das xícaras e meus olhos esbarram no olhar enciumado da menina. Compreendo-a: aquele era um objeto muito particular. Recolho minha mão enquanto leio seus gestos e alma perdidos em sentimentos controversos. Luto contra a tentação de acariciar os seus cabelos rebeldes.

Por que não pude lhe dizer que tudo ficaria bem? Que o tempo entorpece a alma, que a dor não passa, mas, adormece e dá sossego; que ela teria forças para encontrar seu lugar no mundo? Por que não apaziguei minha alma de criança quando pude fazê-lo?

Com uma seriedade notável, a menina guarda os brinquedos. Senta-se ao meu lado, sorri sem jeito, olha-me, cruza os bracinhos à frente do corpo e diz: minha mãe trabalha longe, mas sempre vou passar minhas férias com ela.

Subitamente se faz séria. Olha-me de maneira curiosa e acrescenta: você se parece muito com a minha mãe...

Ao ouvi-la, minha alma mergulha em turbilhão impossível de ser contado. Há aí um espaço emocional em que tudo fica muito confuso e nebuloso. Não guardo lembrança alguma desse momento. Quando os fatos ficam novamente claros, a menina que fui olha para a mulher que sou qual mãe olha para a filha.

Finalmente compreendo tudo. Deito-me no colo da criança, ela acaricia-me os cabelos rebeldes enquanto, timidamente, me diz: está tudo bem, adormeça, vamos ficar bem!
 

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