Os livros aos quais pertenço

Por: Maria Luiza Salomão

(para o grupo do facebook “o que você está lendo agora?”)

Todos os escritores relembram suas primeiras leituras, o momento crucial quando elegeram o seu grupo predileto de autores, de diferentes épocas. As primeiras obras de um escritor denotam um estilo revelador, nas entrelinhas (ou rasgadamente), traem o seu modelo de inspiração. Clarice Lispector, por exemplo, rasgou um romance que, segundo ela, revelava a grande influência que teve de Hermann Hesse. Guimarães Rosa escreveu contos, inicialmente, que seguiam o estilo de narrativa de Edgar Allan Poe.

Lendo Goethe, eu me perguntei se Freud sabia o quanto o seu estilo de escrita traía sua admiração incondicional de Goethe, separados, os dois, por quase um século. Freud recebeu um único prêmio, o Prêmio Goethe, em 1930, pelo ensaio “O Futuro de uma Ilusão”, no dia 28 de agosto, em Frankfurt.

Somos leitores e somos autores das histórias que lemos (já que as interpretamos e as usamos, em causa própria). A leitura que escolhemos, a estante de livros que formamos, é reveladora da tribo a que pertencemos, indica como sentimos o que sentimos, e quais valores propagamos.

Alguns livros nos colocam no bojo e a bordo do nosso Destino, e em relação ao nosso entorno, em uma curiosa e afetiva relação de lealdade.

Os livros que escolhemos são como um brasão, a representar melhor a nossa nacionalidade (mais do que a certidão de batismo) e nossa essência mais profunda (mais do que qualquer tentativa de descrição autobiográfica). Mais do que proprietários dos livros que escolhemos, somos possuídos pelo que alguns livros depositaram nos vãos da nossa alma. Ao invés de pregarmos ex-libris nos nossos livros, deveríamos fazer uma tatuagem deles nos nossos corpos (já que temos a criptografia deles todos na alma) a indicar a quais livros pertencemos. Seria uma forma de conhecimento bastante interessante, sermos os ex-libris de “O Grande Sertão: veredas”, por exemplo. Talvez nos entendêssemos melhor, nas nossas diferenças, se reconhecêssemos as nossas estampadas afinidades. Ou não?
 

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