Fragilidade

Por: Heloisa Pereira de Paula Reis

Estavam juntos há tanto tempo e sequer perceberam que a falta de palavras entre eles mostrava a fragilidade do sentimento que os unia. Olhares não mais eram trocados, a não ser os que perpassavam o outro e iam à procura do nada. Eram mais do que dois estranhos que já foram tão íntimos. Fazer o que com esse silêncio que doía na alma, com essa dor que ela não sabia nomear? De início ela reagiu com choro a essa quietude maléfica do não falar, que a deixava tensa, sem rumo, sem chão.

Não se deu conta de tantas noites em que olhou para o relógio a esperá-lo, pensando tantas coisas, imaginando-se a dizê-las tão logo ele chegasse. Que nada. Ou dormia ou sorria e corria a seu encontro, aliviada ao vê-lo voltar mais uma vez para casa. Como se mudo fosse, mas voltar. Aos poucos, as palavras que entre eles sempre foram tantas, pegaram o rumo da rua. Foram saindo, saindo, sem que ela percebesse, sem que se desse conta. O “vá sozinha, estou cansado”, ouvido tantas vezes, soava como se realmente fosse verdade. Ela não se apercebia que era à mesmice de todo dia que ele se referia. Ela ia, ele ficava.

Acusá-lo de que estava distante, frio, só aumentaria a distância entre eles... E aí, o que é que ela deveria fazer, se não gostava sequer de imaginar tal situação? Não se dava conta das evidências gritantes que permeavam a falta de informações entre eles, que sempre disseram que uma boa comunicação faz parte importante da intimidade.Como pensar que superaram tantos preconceitos, lutaram tanto para ficarem juntos e agora parece que nada teve sentido, de nada valeu a luta pelo sonho que se transformou em pesadelo...Ela passava o dia cheio de dúvidas e incertezas, na busca exacerbada das palavras que teimavam em não fazer parte do dia a dia dos dois.

Para onde elas teriam ido? Será que elas se perderam no caminho do desamor, da inferioridade, das frustrações, dos rancores, da monotonia, da infidelidade? Ou será que foi no caminho do trabalhar muito, descansar pouco, do partilhar quase nada a vida em família e sentir-se um estranho no ninho, aquele que só é visto ao final do mês, ao deixar o dinheiro sobre a mesa...

Em que caminho se perderam?
 

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