O elo encontrado

Por: Maria Rita Liporoni Toledo

Um dos sonhos de Carminha era concretizar o pedido da mãe: dar a uma descendente sua o brinco de ouro, em forma de argola torcida, que trouxera a ela intensas recordações da juventude. Carmi- nha usou-o muitas vezes, em festas e ocasiões especiais, como no seu casamento. Preocupava-a o fato de estar casada há anos e não ter tido filhos, mas como era muito amorosa, vivia feliz com seu marido. O tempo foi passando e eles resolveram adotar uma menina. Marina foi criada com amor e carinho, tornando-se a alegria da casa. Uma filha meiga, atenciosa e responsável que encontrara nestes pais o acolhimento que não tivera ao nascer. Tinham uma vida harmoniosa, apesar de Marina saber a verdade e ter rompantes de angústia quando se lembrava de sua origem. Porém, pensava em viver intensamente o presente e sonhar com o futuro, pois acreditava que os sonhos movem as pessoas.

Carminha esperava uma ocasião para presenteá-la com o lindo brinco. Quando ela fez quinze anos quase se decidiu, mas esperou um pouco mais. O casamento dela foi um evento radiante. Tanto ao gosto dos pais como dos noivos, mesmo assim, Carminha ainda não sentira ser a hora certa. Marina mudara-se para a própria casa, onde colocara um toque pessoal. Tinha talentos artísticos e o belo lhe era familiar. A mãe, também, tinha muitas atividades e foram caminhando, vivencian- do alegrias, tristezas como todos os seres humanos.

Certo dia, Marina chega à casa da mãe com um brilho novo nos olhos. O sorriso no rosto revelava uma felicidade inusitada. Abraçou a mãe e lhe revelou que iria ter uma filha. Carminha sentiu uma emoção muito grande, como se sua vida não terminasse jamais, uma sensação de continuidade. Ainda emocionada, pensou que era o momento certo para entregar à filha o brinco e as lembranças que ele guardava e assim o fez. Esta, dominada por grande alegria, lhe disse que o usaria muito, muito até dá-lo a neta, quando moça. Elas sabiam que o brinco simbolizava o afeto que sentiam. O elo que passava de uma geração a outra chamava-se amor.

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