Caramelinhos

Por: Maria Luiza Salomão

Tenho sido visitada por um casal de passarinhos que parecem pardais. Eles têm umas listras negras e brancas, nas asas, e umas bolinhas brancas, parecidas com um desenho rendado, pontilhado. A cor caramelo se destaca, elegantemente em meio ao branco e preto, também em largas listras. Têm bicos pequenos, mas fortes. Como eu sei? Porque eles não se conformam quando encontram a porta do meu consultório fechada. Apoiam-se na maçaneta, do lado de fora da sala, e bicam o vidro, tec-te-tec. Imagino que queiram entrar. Em geral eles vêm em dois.

Insistem por um bom tempo, bicam ritmados o seu código morse. Depois revoam de uma arvorezinha à maçaneta vão e voltam. Algumas vezes se chocaram com a porta de vidro, revira-volteiam algum tempo, e, depois de uns dez ou quinze minutos, desistem e se vão.

Apelidei a dupla de “caramelinhos”, e confesso que estas visitas têm sido um enigma o que querem de mim, estas figurinhas elegantes, persistentes, insistentes? Gostaria de batucar algum código que nos fizesse estreitar os laços de amizade.

Sinceramente?

Eu os tenho em alto conceito: não têm medo de mim, querem ampliar seus horizontes, adentrar a minha sala, e não abandonam o seu objetivo, mesmo que eu pareça um totem sentado, aqui, na minha poltrona. Tem um, unzinho, que parece mais devotado ao mistério desta nossa comunicação.

Ele apareceu hoje: não se chocou nem bicou o vidro, apoiou-se na maçaneta e ficou me olhando um tempo, eu fiquei olhando para ele, e pronto. Parecia outra forma de código. Mas qual?

Estamos assim: na dependência de existirmos. Eu na vida dele. Ele na minha vida. Persistimos, insistimos, e agora estamos simplesmente existindo, um para o outro. Ou complexamente existindo, ele lá e eu cá.

Esse é o enigma que nos separa e nos une, afora a concreta porta de vidro, esta barreira que permite nosso virtual contato?

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