Querida: um duplo narrar

Por: Sônia Machiavelli

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Lançado há alguns dias em Franca e há uma semana em São Paulo, na Francal, o livro Querida, de Lúcia Helena Maniglia Brigagão, traça um alentado perfil de Sonia Menezes Pizzo. E também de Franca, cidade que viu nascer, crescer, se firmar e ampliar horizontes na comunicação social esta que os francanos se acostumaram a chamar de Patrícia.

Escrever uma biografia, mesmo autorizada, pressupõe um projeto sujeito a riscos de vários tipos. É possível que não se encontrem as fontes que chancelem o que se sabe da história oral; ser conduzida a caminhos que desviem a narrativa do foco principal; desafinar em algum momento da escrita; começar com entusiasmo e terminar com desalento, especialmente quando a pesquisa é longa e exaustiva; ou ainda produzir algo que, perseguindo uma objetividade necessária, torne-se frio e entediante.

A autora de Querida salva-se de todos esses possíveis desafios e consegue construir uma narrativa rica em fatos, interessante em observações psicológicas, cumpridora de sua função de descrever uma personalidade dinâmica, aguerrida e vocacionada à comunicação, além de pioneira numa profissão onde as mulheres francanas ainda não tinham representantes no começo da década de 60. E completa o retrato multifacetado mesclando-o no bloco das últimas oito décadas de Franca.

A linha de narração não obedece de forma rígida à linearidade, e esse recurso dinamiza o relato. Entre avanços e recuos no tempo, a narradora muda de gênero: desabrocha em crônica uma passagem mais lírica; transforma em conto um acontecimento mais denso; organiza em linguagem poética alguma observação oriunda de regiões onde habitam o lúdico e o lírico. Reproduz assim, pelo que encontra na história da biografada, recortes de sofrimentos intercalados por levezas que atendem a nomes como alegrias, gratificações, acolhimentos, conquistas, sonhos, celebrações.

No caso de Sônia Menezes Pizzo, duas tragédias a levaram à dor que os estudiosos da alma definem como aquela mais difícil de suportar: a morte de um filho, ou dos dois únicos filhos, ocorrida em passado recente. Foram momentos em que amigos e admiradores temeram pela saúde física e emocional da biografada, que conseguiu, entretanto, suplantar a dor e sair do luto com disposição de continuar trabalhando no que sempre gostou de fazer: colunismo social, em rádio, jornal e televisão.

Se, pelas características que a singularizam, a vida de Sônia/Patrícia representou desde muito cedo constante desafio à superação de empecilhos, a maioria deles objeção ao seu desejo de conquistar por seus méritos um lugar no mundo, sua luta sem esmorecimento fez dela uma mulher forte e obstinada, mas nunca intransigente. É o que também nos mostra a biógrafa, que a descreve como flexível, aberta ao diálogo, sem mágoas e sem revanchismos, mantendo íntegras aos oitenta e um anos a lucidez e a memória que lhe permitem centrar-se no trabalho e nos relacionamentos afetivos. Por todas essas peculiaridades, é vida que vale a pena ser contada. Mas ainda há outra, e muito importante, como sugere a biógrafa citando o empenho da biografada por conquistas que vão da criação da Apae à da Francal, além de uma determinação em inserir Franca no seu discurso midiático, sempre com a intenção de lhe conferir visibilidade. Muitos desses momentos foram fixados em fotos, todas de alta qualidade, e agora reunidas no livro pelo belo projeto editorial de André Martins, como se fosse outra narrativa de imagens colada ao discurso para ilustrá-lo

Uma personalidade assim decidida, com uma história pessoal rica e singular, por si só autorizaria a validade da biografia. Mas a biógrafa foi além nas suas pesquisas e desvelou a evolução da cidade enquanto narrava o percurso da sua personagem. Os textos exibem ao leitor um espaço urbano repleto de significados para várias gerações de francanos e sob este aspecto apontam para as grandes mudanças que nos trouxeram até a Franca onde vivemos hoje: quem lê Querida, percebe-se olhando paisagens já desaparecidas pelo eterno reconstruir-se das cidades. Deste duplo narrar ergue-se a biografia, história pessoal à qual resta agregada a história francana do período.

Jorge Luís Borges dizia que “malogra o autor se o leitor não conclui a leitura do texto”. Querida, pelo inte-resse que desperta desde o primeiro parágrafo, atesta as qualidades literárias de Lúcia ao organizar sob um olhar estético as personas da biografada.

DOIS ANOS DE PESQUISA

Lúcia H. M. Brigagão

Lúcia Helena Maniglia Brigagão nasceu em Franca. Sempre gostou de escrever e começou a publicar em jornais estudantis, ainda nos anos de formação. Na década de 80 foi colaboradora do jornal Comércio da Franca assinando a coluna Homens, Mulheres e Coisas, na página Revista Social, de Patrícia. Nas duas décadas seguintes manteve a coluna ... E coisas no jornal Diário da Franca, nas páginas de Edson Luís Fernandes e Well. Assinou reportagens na revista Lançamentos, e criou a coluna Entrando no Couro, no jornal Exclusivo. Outra publicação especializada do setor calçadista, a revista WS, também acolheu textos da autora. Compareceu com crônica em coletânea organizada pela Editora Rossato. Mantém a coluna 360 graus na revista Enfoque. Em 2009 voltou a ser colaboradora do Comércio da Franca com uma coluna semanal de opinião. É membro da Academia Francana de Letras.

Querida exigiu da biógrafa longo e intenso trabalho de pesquisa, ou seja, dezenas de entrevistas, gravações, busca a material impresso, visitas a bibliotecas, arquivos, acervos. Foram dois anos para a reunião de informações. De posse dessa massa de dados, organizou-a numa estrutura que privilegiou o relato e num estilo que apostou no caráter literário da escrita.

Na biografia Querida, seu primeiro livro, fica claro que é uma escritora que se expressa sem elidir afetos, e o faz de maneira elegante e genuína, conferindo ao discurso o calor humano exigido a quem se dispõe a falar de uma vida com o cuidado e respeito que merece uma existência como a de Sônia Menezes Pizzo, a radialista, colunista e comunicadora Patrícia.


Serviço
Título: Querida
Autora: Lúcia Helena Maniglia Brigagão
Editora: Cristal
Número de páginas: 200
Projeto gráfico e edição: André Martins
Onde comprar: nas livrarias

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