Intuição

Por: José Borges da Silva

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Chegara à Igreja muito cedo, quando um velho cônego ainda preparava o altar para a celebração. Seguia uma intuição algo absolutamente fora de rotina pragmática que levava, afeita aos arrazoados lógicos, à fundamentação, antes de tudo. Tudo porque no domingo anterior conversara informalmente com uma jovem radiante, cujos trejeitos e olhar não mais saíram de sua mente. Nunca pensara a sério nos assuntos religiosos. Mas, a rotina solitária na grande cidade, as longas noites na companhia apenas dos próprios pensamentos o tornaram mais atento às demandas do espírito. Gostava de vagar pela cidade nos fins de semana, quando a lida diária das ruas entrava em recesso. Num domingo de manhã, numa caminhada pelo centro, foi surpreendido pela grandiosidade mística dos cantos gregorianos que provinham desde o Mosteiro de São Bento. Entrou no templo e foi arrebatado pelas cores vivas dos vitrais, pela luminosidade dos afrescos, pelo aconchego do ambiente de penumbra. E desde então passou a visitar a basílica como um meio de afastar a fadiga da rotina de trabalho e de solidão. Até o casual encontro com aquela jovem, cuja leveza e espontaneidade de gestos lhe tiraram do prumo. E então, de homem comedido e metódico que sempre fora, agora estava ansioso, aguardando a chegada do domingo, munido de uma nova percepção que lhe dava certeza de que o reencontro era coisa inevitável e fundamental. Era algo novo, que não entendia, mas que desejava do fundo da alma. Ela era alguém que conhecia de longa data, sentia, e por quem esperava, embora jamais a tivesse visto antes.

Há oito anos vivia na Capital paulista, só, numa quitinete alugada, nas proximidades da Praça da Sé. Chegara para se preparar para concursos na área jurídica, com recursos para seis meses ou pouco mais, a depender das despesas que economizasse. Não logrou aprovação nos primeiros anos. Arranjou emprego num grande escritório de advocacia. O tempo de estudos foi diminuindo. O entusiasmo pelos projetos originais esmorecendo. Passava boa parte do dia no fórum, em audiências ou vendo processos. O resto do tempo passava no escritório, estudando assuntos controvertidos. Sentia que a vida mudara de curso. O cargo público de juiz, promotor ou de outra carreira de estado qualquer foi perdendo a magia dos tempos de faculdade. Atuando no foro não vira nada de excepcional nas funções daqueles cargos. Depois, descobrira que a advocacia era emocionante, livre, sempre um desafio, em que se sentia uma espécie de cavaleiro andante, um defensor de pessoas comuns, despidas de poder e prerrogativas. Apenas um lado permanecia meio cinzento em sua vida: o estar só, embora nos finais de semana saísse com os amigos. Mas, a volta pra casa era sempre sinônimo de solidão, toda a noite, em todas as horas...

Por isso estava ali, naquele domingo frio e de garoa fina a esperar. Aos poucos os fiéis foram ocupando espaços nos bancos ao seu lado. No rosto, mantinha discreto sorriso. Mas no peito a ansiedade, uma ligeira aflição se delineava. Se pelo menos houvesse combinado com ela, talvez pudesse marcar o assento... Seria licito marcar lugar na igreja, sem a certeza da chegada de alguém? Antes que chegasse a alguma conclusão, um calor intenso lhe assomou às faces, uma sensação de certeza e instabilidade, de alegria e de medo, ao mesmo tempo, lhe tomou conta do espírito. Lá no fim do corredor despontava ela, mais bela do que nunca, num longo casaco escuro, cabelos aparados em um corte ousado, um brando sorriso e a leveza... Sempre a leveza, nos gestos e no olhar... No fundo do turbilhão de emoções uma agradável sensação de plenitude ganhava corpo. Toda a sua vida parecia estar se definindo naquele breve instante. O futuro, uma sempre incômoda interrogação, agora se apresentava estável. A solidão, algo distante. Na alma sentia, enfim, o desejado conforto que só a plenitude é capaz de proporcionar. E sorriu, desajeitado, enquanto ela tomava assento ao seu lado.

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