Trattoria Buzzino, em Florença

Por: Maria Luiza Salomão

Ao sair da Galleria degli Uffizi, em Florença, nós estávamos famintos. Onde comer no país onde se come tão bem? Bem na saída da Galleria, uma trattoria, frequentada pelos florentinos, alguns vestidos de terno, como que vindos do trabalho. Afinal, era uma quinta-feira.

No caixa parecia estar o filho, de meia idade. O seu pai, nos seus quase setenta, eficiente e simpático, atendia e coordenava todos, como um maestro. Mas a mamma! Esta, ah, ela se atrapalhava toda conosco! Entendia tudo ao contrário do que pedíamos. Eu a via gesticular para o filho, para o marido, pedindo socorro. Sim, literalmente ela pedia socorro por não nos entender! Parecia criação de um filme de Fellini: alvoroçamos a sua vida com a nossa simples presença. Seria o excesso de turistas, o lugar ser frequentado (basicamente) pelos nativos, por que será tanto alvoroço? Sou muito sensível às reações humanas, e fiquei curiosa com a reação da mamma italiana.

Eu tentava fazê-la relaxar, queria passar a enorme ternura que me invadiu quando a vi naquele estado. Ela nos olhava, sobrecenhos franzidos, cabeleira branca, expressão raivosa e medrosa, como se fôssemos duas figuras aterrorizantes. Não parecia que eu era de outro país, mas de outro planeta. E o terror era: não falávamos a sua língua! Ela sacudia a cabeça, levantava os braços aos céus, tartamudeava o seu italiano, até que capitulou. Fez um gesto, largo e universal, perfeitamente compreensível, definitivo, pleno, querendo dizer eu não vou lá! Não façam isso comigo! Tudo, menos atender este casal estrangeiro! (porca miseria!).

Sorri, empática com o seu desalento, não foi sorriso amarelo, não. Eu também queria ser compreendida, não havia necessidade de qualquer parole. O pai acudiu e atendeu o nosso pedido, poupando a mulher. O filho, ao ver minha fisionomia que devia estar condoída com sua mamma, nos serviu um Vin Santo, cortesia da casa, final da refeição típica florentina.

Comida deliciosa, simples e bem feita. Difícil mangiare mal na Itália, ainda mais com o tempero do vinho nacional. Preço justo, quase de um fast food.

Mas a melhor experiência que guardei do Buzzino foi ter “reconhecido” uma figura felliniana. Um diretor de cinema tem responsabilidade quando recria o seu país (o cotidiano e os costumes dos seus cidadãos) e se torna genial, universal, quando consegue.

Não me lembro do que comi, ou de qual foi o vinho que acompanhou a refeição, mas jamais esquecerei a “mamma italiana de Fellini”, e a sua hiperbólica reação em mãos, gestos, palavras, na seu puro e genuíno sentimento, para a qual não precisei de qualquer tradução.

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