Psicopraça

Por: Janaina Leão

Descíamos a ladeira “a milhão”, gritando e rindo até dar câimbra na cara.

Guardávamos as bicicletas na nossa garagem a céu aberto e passávamos o dia ali, na pracinha perto de casa.

Tinha mais de dez mil árvores, na minha matemática infantil. Quando vinha um macaco era uma alegria escandalosa. Era engraçado ver os cachorros rolarem na grama e era lindo ver os cavalos pastarem.

Botávamos um de butuca para avisar se descia alguma mãe de chinela na mão.

Eu tinha nojo de pegar girino, mas o Samir pegava todos, e levava para casa dentro de um vidro, para o desespero de sua mãe. Minha irmã e as outras amassavam barro e faziam verdadeiras trincheiras, para a guerra lamacenta. A gente não tinha medo de sujar. O Betinho fazia pipa para vender e vez ou outra a gente invadia uma construção para brincar de esconde- esconde.

Não havia música. Era um silêncio maravilhoso. Aquele tipo de silêncio que você só sente quando está junto de alguém que você ama, e sente prazer pela companhia. O som era de maritacas e bem- te- vis, de risos e muitos gritos: principalmente quando a mamona estralava na perna de um.

Enquanto um preparava o papelão pros outros descerem escorregando o barranco, as meninas faziam comidinha, com flores picadas e gravetos. Cada dia era uma comida diferente. Cada dia era uma descoberta. Tudo isso sob um céu azul menino e um sol amarelo ouro, salpicado de verdes angicos.

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras