Livro resgata história de imigrantes italianos

Por: Sônia Machiavelli

177657

Fiquei agradavelmente surpresa com a leitura do livro A união das famílias Vergani e Bru-nacci. Lançado na cidade de forma intimista, na livraria Pé da Letra, há duas semanas, em evento que o Comércio da Franca noticiou, ele me foi oferecido pelo autor, Cassiano da Silva Costa, com autógrafo simpático, que agradeço.

Os que não vivem de forma leviana ou alienada a existência, e veem no passado explicações para muitos acontecimentos presentes, manifestam certa curiosidade ou algum interesse por suas origens familiares. Quem foram os bisavós? Como viveram os que os antecederam? Quais seriam suas atividades? Que desafios enfrentaram? De que maneira, enfim, sobreviveram nos séculos passados esses seres que ficam mais próximos das raízes que dos galhos, na nossa imaginada árvore genealógica? Há os que tentam resgatar sua história mais antiga e não o conseguem, por razões várias. Mas há os que alcançam êxito na empreitada e a transformam em livro. É o caso do autor desta obra que revela as mais antigas fontes conhecidas dos troncos que originaram os atuais Vergani e Brunacci. Alguns rebentos dos galhos deles brotados vivem em Franca.

De forma muito clara e despertando a curiosidade do leitor, na apresentação o autor explica o que o moveu e qual foi o primeiro fio que conseguiu puxar no novelo de histórias exemplares de coragem e trabalho : “ Nunca tive a intenção de escrever um livro, contudo, a vontade de obter a cidadania italiana mudou o rumo de minha vida e fez com que eu pudesse proporcionar a todos os descendentes das famílias Vergani e Brunacci um pouco mais de nossa história”.

Esse “pouco mais” é muito. Inclui uma breve descrição da Itália e traços geopolíticos suficientes para orientar o leitor que esteja desinformado. E mostra o sofrimento dos que chegaram e venceram depois de décadas de trabalho constante. Vencer, para os imigrantes, significava não sucumbir na terceira classe dos navios; sobreviver e criar os filhos que vinham junto; na melhor das hipóteses, chegar ao fim da existência sob teto próprio e com quintal onde plantar verduras. Assim, a maioria. Houve os que conseguiram um pouco mais ao sair da lavoura e buscar nos centros urbanos outras profissões, tornando-se barbeiros, padeiros, marceneiros, pedreiros, artesãos, tecelões...

Até o terceiro capítulo, toda a descrição do autor é como um preparo para inserir na cena o primeiro membro da Família Vergani aqui chegado no dia 30 de setembro de 1875, Carlos Vergani, 28, casado com Domenica: “O desembarque se deu no Porto do Rio de Janeiro e seu destino foi Caxias do Sul (RS). Após sua chegada, outros membros da família Vergani sucederam-no.” No capítulo seguinte, Cassiano descreve a chegada dos primeiros Brunacci, três anos depois: “Stefano Brunacci e Lucia di Pacífico Lorenzetti, acompanhados de cinco filhos, vinham de Matélica e foram para Poços de Caldas.” Dos 633 passageiros do vapor Sud’America, procedente de Gênova, 501 tinham contrato com fazendeiros de Minas Gerais. No livro Os admiráveis italianos de Poços de Caldas, de Mário Seguso, citado pelo autor, encontra-se “o primeiro registro da união das famílias Brunacci e Vergani, datado de 1897.”

Por aí avançará a história, com nomes e datas, tudo muito bem documentado, expressão de um trabalho cuidadoso que só pôde começar graças ao admirável mundo da Internet, pois no início o autor sabia apenas que seu bisavô Carlo Emílio Vergani era de Bergamo, província italiana. Ninguém da família conhecia o nome da cidade natal. Foi então que ele resolveu disparar “300 e-mails para toda Bergamo, com a esperança de achar o local de nascença e obter a certidão de nascimento de meu bisavô’. Deu certo: Pouco depois, Enrica Conti do Anagrafe encaminhou por e-mail a mensagem onde informava o lugar onde havia nascido Carlos Vergani: Fara Gera D’Adda. Era do que necessitava o autor para lançar-se nas buscas que, mais do que a dupla cidadania, lhe possibilitariam escrever o livro que é um presente para todos os que creem que “a vida é uma jornada para descobrir quem somos. Nossas raízes fazem parte desta descoberta”.


OS GENS QUE CARREGAMOS

CASSIANO DA SILVA COSTA

Nas Considerações Finais, título do capítulo com o qual encerra seu livro, o autor deixa a persona histórica para assinar um bonito texto literário. Ele escreve: “Após dois anos de pesquisa, estou sentado à minha mesa de leitura, terminando de ler um dos mais bonitos projetos que realizei nesta vida. A história de minha família. Sinto hoje uma responsabilidade maior pela minha vida e pela vida de minha família por conhecer as dificuldades que meus ancestrais passaram e percorreram para eu poder estar aqui, escrevendo e contando um pouco dessa história tão bonita.”

Depois de alguns parágrafos, pergunta ao leitor: “Alguma vez você já parou para pensar onde é que está depositando sua energia? Você sabe exatamente quais são as coisas mais importantes para você e quais as coisas desta vida a que você está realmente dando valor? Você já conseguiu, durante esta vida tão agitada e estressante, que nos leva ao extremo de nossas forças, parar, respirar e se perguntar: “De onde viemos?”

E considera por fim: “Sua genética nada mais é do que a vida de todos os seus ancestrais atuando em você. Seu corpo é obra coletiva construída através dos tempos rumo à evolução”.

Cassiano da Silva Costa é advogado, contabilista, pós-graduado em Direito pela USP. Atualmente exerce o cargo de auditor fiscal da Receita Federal do Brasil, em São Paulo. Casado com a pediatra Flaviane Scherer Costa, é pai de Bruna e Felipe, de 7 e 6 anos respectivamente. Seu livro, não comercializado, foi um presente aos descendentes dos Vergani e Brunacci.

Serviço
Título: A união das famílias Vergani e Brunacci
Autor: Cassiano da Silva Costa
Editora: Scortecci
Número de páginas: 102

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras