Ocaso

Por: Everton de Paula

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Mas esse trânsito de Franca está mesmo de matar. E olhe que esta frase tem um quê de literal. Desvencilhei-me dos carros no centro da cidade até chegar à pracinha do cemitério, ali perto da Catedral. Minha filha pediu-me para encostar e esperá-la um pouco enquanto ia à banca de revistas. Talvez fossem cinco horas da tarde. O sol de julho já ensaiava desmaiar no horizonte. Um pouco de calma sob aquela frondosa árvore até que ia bem àquele momento do dia, uma sexta-feira.

Com os vidros abertos, chegavam até mim os ruídos externos. Admirei com certa surpresa que o retrato de operários retornando ao lar à tardezinha ainda não havia se tornado uma pálida lembrança no álbum da memória. Lá iam eles, passos cansados, ombros vergados, aos pares, sozinhos, em grupos... Talvez um caldo parco os esperasse junto ao sorriso da esposinha amada. Imaginei a cena familiar com crianças e cortinas velhas, mas um sentimento de tênues olhares e laços de amor a se cruzarem.

Os pássaros procuravam o pouso para a noite que se avizinhava. A revoada de pardais trazia por fundo o céu escarlate do sol poente.

Paz.

Levei meu olhar a uma casinha caiada, de janelas tristes e um portão que se abria, com estalidos que chegavam a mim em impressionante clareza. Saía um senhor provavelmente sexagenário com um pratinho de louça na mão, delicadamente envolto por um pano de cozinha ou coisa parecida. Atrás dele, passos claudicantes, uma velhinha, cabelos brancos, corpo mirrado. A mãe, com certeza.

Impossível não ouvir o breve diálogo:

– Mãe, a senhora precisa de mais alguma coisa?

– Não, meu filho, eu estou bem!

– E a tonteira, mãe, passou?

– Sim, meu filho, eu já estou bem. Não se preocupe tanto comigo.

– Não se esqueça do comprimidinho da caixinha azul antes de se deitar. Cubra-se bem, porque deve fazer mais frio à noite. Não se levante na madrugada. Amanhã bem cedinho passo aqui para ver se está tudo bem... Fique com Deus, minha mãe!

– Vá com Deus, meu filho. Deus te proteja e abençoe.

Dito isto, a velha abraçou demoradamente o filho e deu-lhe um beijo carinhoso na face. Fez-lhe um carinho qualquer no ombro, sorriu e fechou o portão. O filho, o senhor, ainda ficou em frente a casa olhando para o chão. Depois caminhou até seu carro, deu partida e foi-se embora. Talvez a tonteira não houvesse passado. Talvez a velha não estivesse tão bem quanto dizia estar. Mas a mãe, sempre a mãe, não transmitiria ao filho o menor sinal de qualquer coisa que pudesse trazer preocupação. Mãe!

Com certeza a velha seria viúva, morava sozinha e recebia regularmente a visita do filho amado. Com certeza houve uma época em que a velha fora moça, jovem, cheia de vigor, a embalar aquele homem quando ainda era criancinha, ao mesmo tempo em que preparava o parco caldo do marido robusto que chegaria logo à tarde. Mas a inexorabilidade do tempo e seus efeitos mudaram o quadro e ali estava ela agora, numa mensagem sutil de gradual despedida a cada dia de seu filho. O beijo desse dia era o mesmo de quando o homem era criança. O mesmo abraço, hoje trêmulo, não perdera o calor do sentimento de mãe.

A janela triste se fechou. A casa se fechou. Quantas recordações, meu Deus, deveriam fervilhar dentro daquela casinha caiada, agora rosada pelos últimos raios do sol quase posto.

Minha filha chegou, aquela flor em botão entrou sorridente no meu carro, com risinhos de pratinha. Retribuí com uma brincadeira qualquer, cócegas no queixinho de princesa...

Contornei a praça; a casa caiada sumia no retrovisor. Dei continuidade ao que me cabia e a noite desceu como manto sobre todos.

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