Modas atemporais

Por: Maria Luiza Salomão

“O que é o nosso passado senão uma série de sonhos?
Que diferença pode haver entre recordar sonhos e recordar o passado?”

Jorge Luis Borges, em comunicação oral, citado por Raul Hartke, psicanalista gaúcho.


Na Vila Olímpia, em São Paulo, eu me deparei com uma placa - “Modas atemporais” em uma casinha sem atrativos. Na parede, grafitados, nomes de estilistas famosos, Glória Coelho, Reinaldo Lourenço, etc.

Não consegui engaiolar o voo da Imaginação. “Vi” roupas nos cabides, extraordinárias, representando tempos e lugares, culturas, para mulheres exóticas e antigas, modernas e futuras, e elas me vestiam!

Depois sorri enternecida para a menina sonhadora, acalmando-a, atraindo-a para o pouso. Os estilistas, hoje, sabem bem o peso das fantasias que criam a Moda, que recriam mulheres (e homens) míticos. Sabem inventar a “romântica”, a “prática”, a “perua”, a “clássica”, a “mulher fatal”, em cores, formas, rendas, brocados, zíperes e botões, em bolsos e bainhas, em recortes. A menina que reside em qualquer mulher embarca fácil nessas fantasias, tão fascinantes quanto fugazes. Torna-se, em panos e cores, costura-se em golas e decotes. Cobre-se, despindo sua alma a olhos argutos. OU despe-se, para homens muito distraídos, guardando sua real intimidade. Estilistas brincam de esconder a identidade de uma mulher. Algumas mulheres podem se confundir no jogo labiríntico de espelhos seculares.

Naquela casinha, adivinhei cleópatras. Gregas em túnicas brancas. Espartilhos vitorianos de veludo preto em longos vestidos, mangas bufantes. Amazonas de minissaias. Hindus envoltas em panos coloridos. Trancinhas rastafári, meio escondidas em turbantes geométricos de cores quentes, africanos. Quimonos de estampas delicadas. Árabes escondendo o rosto em sedas e pedrarias. Burcas. Mantôs e tubinhos pretos. Terninhos. Xales flamencos e leques espanhóis. Boleros, corpetes. Brincos e colares, anéis, badulaques ciganos, saias vermelhas de cetim.

Assim brincava a menina com as roupas da mamãe. Assim brinco, hoje, com todas as mulheres que recordo, talvez, ter sido. Que sou, por que não?

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras