A descoberta

Por: Everton de Paula

Enfim chega-se aos sessenta anos. O primeiro dilema é o tapinha nas costas acompanhado de uma voz plena de compaixão que diz: “A vida começa aos sessenta!” Você não sabe se é consolo ou gozação. O interessante é que ouvi a frase de mesmo sentido quando fiz quarenta anos: “A vida começa aos quarenta, meu caro. Parabéns!” (!!!) Depois o mesmo se sucedeu aos cinquenta. Afinal, quando isso acaba? Está certo: não fumo, não bebo, não exagero nas comidas calóricas embora leve uma vida sedentária. Sedentária para o corpo, porque a mente é um vulcão o que nos leva ao segundo dilema do sexagenário: parece que todos sabem que eu tenho sessenta anos, mas não avisaram ainda para o meu cérebro. Minha mente traz de cor as jogadas de tênis de campo, mas as pernas tremem e o coração dispara quando, raquete em punho, ouso ir à quadra me aguentar por quinze minutos. Sei como correr enquanto caminho no crepúsculo de um domingo qualquer: basta colocar um pé bem à frente do outro, em velocidade um pouco maior que a de um simples andar. Muito bem: correr dez metros implica puxar pela boca, narinas e orelhas, se pudesse, todo o ar que me rodeia para dentro dos pulmões espantados e despreparados para tal exercício. Futebol; meu Deus, como joguei futebol em minha vida: de campo, de salão, social, de chácara, em terra batida, em piso de madeira. Joguei ininterruptamente, aos finais de semana, talvez uns trinta e cinco anos. Bastaram vinte meses longe da bola para ir ao campo e ouvir, com desolação, alguém dizer “Passa pro tio!” “Passa” é passar a bola e o “tio” é você! E mais: você chega aos extremos da irritação quando o zagueiro adversário o marca à distância, com respeito... E muitas vezes, deixa você chutar a gol, para a bola ir de mansinho, mansinho, quase parando, nas mãos do goleiro do outro time.

Coisa fina, não é?

Você está rindo? Calma, velhinho, você chega lá.

Se há compensações? Ah, isso tem. E chamo de “compensações” porque, afinal de contas, a vida tem que lhe dar algo em troca de algumas perdas.

Eu disse algumas?

Fui modesto, porque as perdas são inúmeras: o cabelo cai, alguns dentes caem, começam a nascer pelos nas narinas e nas orelhas, estas crescem... Sem contar com a implacável lei da gravidade, que faz questão de provar que existe, por exemplo, nas suas bochechas, que aos poucos vão transformando seu rosto em algo muito semelhante a um buldogue.

Ah, ia me esquecendo das compensações. Vejam como são lindas e interessantes, altamente vantajosas: ter direito à fila preferencial nos bancos superlotados de clientes (e ainda olham para a gente com raiva!), poder estacionar em lugares reservados nos pátios dos supermercados e shoppings, entrar gratuitamente nos jogos da Francana (meu bom Deus, que decadência!), tomar ônibus urbanos sem ter que pagar... Uma maravilha! Mais alguns anos e compro uma boina cinza. Pronto, o quadro estaria completo!

Conversando sobre este assunto com um grande amigo intelectual de São José do Rio Pardo, um bondoso e sarcástico octogenário, disse-me ele à guisa de... À guisa de que mesmo?... Bom, deixa para lá, porque esta é outra armadilha em que cai o sexagenário: esquecer as palavras óbvias. Mas do que estava falando mesmo? Ah, sim, do meu amigo. Disse-me ele: “Não precisamos mais ter receio de coisa alguma. Já somos ícones!”

Frase emblemática, não é? Basta saber uma coisa: ícone do quê? Símbolo da resistência física? Duvido muito, principalmente quando o médico das consultas rotineiras lhe diz: “Não fume, não beba, coma com moderação, evite os embutidos, muito cuidado com o sexo (o que é mesmo ter “cuidado” com o sexo: é exercitá-lo devagarinho? Ou só ficar nas preliminares?), não suba as escadas” e coisas do gênero. Só faltou dizer: “Passe a caminhar com um andador ou bengalas... E um tubo de oxigênio por perto, para qualquer emergência!”

Mas tem uma coisa de que me orgulho: quando dou minhas palestras (para isso ainda estou em forma), os ouvintes me olham com admiração, ouvem-me com interesse, chegam a aplaudir de forma entusiástica, como a dizer: “Parabéns! Você conseguiu! Tente mais vezes!”

Falei em caírem cabelos? Há outra coisa que também cai: o assédio feminino.

É claro, meu bom e paciente leitor, que existe em tudo isso uma dose considerável de exageros, mas sempre é bom ir além dos limites para poder expressar de tal forma que o receptor capte um mínimo da exasperação.

É-me bastante agradável o olhar que as pessoas me dirigem, ou melhor, passaram a me dirigir depois dos sessenta: um olhar de respeito, de consideração. Mas tanto, tanto, que passei a ficar desconfiado e resolvi pesquisar o significado daquele olhar. Quando uso da palavra em reuniões acadêmicas, os presentes se calam e abrem os olhos: “Vai falar o decano!” O caixa do supermercado que atende aos berros os clientes, quando me vê aproximar, pergunta delicadamente em voz pausada: “O senhor quer nota fiscal paulista?” E num tom elevado, pressupondo talvez que você já esteja surdo.

Pesquisei este olhar de respeito, estes gestos de consideração, esse abrir caminhos que as pessoas em volta lhe dirigem e descobri, por fim, a razão de tudo isso: dó!

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