A personagem histórica e o drama pessoal

Por: Sônia Machiavelli

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Definido como biografia e drama, A Dama de Ferro, que narra momentos da vida pública e particular de Margareth Tatcher, a primeira mulher a ocupar o cargo de primeira-ministra em um país ocidental, mescla os dois gêneros de forma fragmentada, com ênfase na tragédia representada pela perda de memória que caracteriza os pacientes que sofrem de Alzheimer. Não é dito no filme que os primeiros sinais da doença apareceram numa conversa da qual participavam diplomatas e a protagonista, que passou a confundir a guerra das Malvinas com a da Bósnia, para espanto dos que conheciam a profundidade e lucidez com que ela, até então, tratara os dois assuntos. Isso se deu no final de 2000 e, desde então, o processo de degeneração foi rápido, crescente, irreversível e avassalador. Numa das últimas entrevistas, ano passado, a filha Carol Thatcher disse aos jornalistas que sua mãe já não conseguia finalizar uma frase. No filme, a cena da compra do litro de leite parece substituir aquele começo de declínio.

É sob o ritmo dessa memória, que recupera apenas vislumbres do passado e desmorona a todo instante, que se constroi o filme dirigido pela inglesa Phyillida Lloyd, tendo como protagonista Meryl Streep. Italiana em As Pontes de Madison, polonesa em A Escolha de Sofia, irlandesa em A Dança das Paixões, psiquiatra em Terapia do Amor, professora em Música do Coração, freira em Dúvida, estilista em O Diabo veste Prada, cantora em Mamma Mia, esta atriz fenomenal deixa o espectador deslumbrado em A Dama de Ferro. É impactante sua interpretação da inglesa do interior que enfrenta muitos preconceitos e consegue quebrar barreiras de gênero e classe num universo dominado por homens de prestígio social, chegando a ser cognominada “dama de ferro” por suas posições duras e inabaláveis. Meryl Streep sustenta o filme com impecável acento inglês, trejeitos, andar de início duro e depois claudicante, olhar frio e indiferente, e, no final, um ar de quem já não pertence mais ao mundo onde um dia desempenhou papel relevante na história de seu país.

Há um preço a pagar pelo êxito que coroa o projeto ao qual a jovem Margareth se entrega ainda muito jovem, influenciada pelo pai e, depois, pelo marido. A conquista que eleva a “filha do quitandeiro” ao posto de primeira-ministra britânica, cargo no qual se manteve por onze anos (1979-1990), traz em seu bojo, por exemplo, a indiferença do filho Mark, retirado da vida da mãe e de seu próprio país, fato mostrado de forma sutil em duas rápidas e inesquecíveis cenas. São estes momentos os que mais movimentam o filme, fazendo-o avançar na linha do tempo do espectador que sempre intervém com sua lógica de causa e efeito, mesmo quando não há linearidade.

Todo escritor que se proponha a biografar alguém da importância icônica de Margareth Tatcher, terá de fazer opção por um caminho apenas, pois os fatos da vida são tantos e tão ricos que se torna impossível mostrar sequer os mais importantes. O que o biógrafo realiza deriva da escolha por um ponto de vista sobre a pessoa em foco. Assim, Phyllida Lloyd não pretendeu, e isso fica óbvio, destrinchar o desempenho de Thatcher na Guerra das Malvinas em 1982, a repressão aos mineiros na greve de 84, a reação ao atentado do qual escapou ilesa neste mesmo ano, os problemas com o violento IRA, a defesa da política liberal, as privatizações implementadas, a crise do desemprego, as parcerias com Ronald Reagan, a reeleição em 87, as medidas impopulares que adotou no âmbito da tributação e a levaram a perder apoio de seu próprio partido, caminho para o pedido de demissão. Tudo isso aparece no filme como relâmpagos que iluminam a cena histórica, sempre com a interlocução do marido Denis Thatcher, que é resgatado da morte pela insanidade da mulher, com seu interessante repertório de frases de efeito que pareciam unir o casal.

Mas o que perdura no espírito do espectador, depois da cena que coloca fim ao filme, não é a Inglaterra do período Thatcher, mas sim a angústia e o temor que nos assolam diante de uma ex-estadista que vemos reduzida a um ser sem memória que vaga por um corredor como se buscasse inconscientemente encontrar uma porta para sair de cena. Mais que um filme sobre a história contemporânea da Inglaterra, esta é um história sobre a fragilidade da existência humana, marcada pela incerteza a respeito de tudo o que está por vir.


SÓLIDA FORMAÇÃO

Phyllida Lloyd

Esta diretora de teatro e cinema nasceu em 1957 em Bristol, Inglaterra, e se graduou em Birmingham em 1979. Um ano depois estava trabalhando em Londres, na BBC, na área de dramaturgia. Nos anos 80 dirigiu e produziu peças de teatro na Bristol Old Vic, famosa companhia. Dali foi para Manchester, onde trabalhou com artistas locais. No final dos anos 90 foi contratada pela consagrada Royal Shakespeare Company. Em 1998 juntou-se à equipe de criação do musical Mamma Mia!, cujo enredo mostra uma adolescente querendo descobrir quem era seu pai biológico. O sucesso comercial do musical, recordista de público, deveu-se em grande parte a Lloyd, que ganhou por seu trabalho o Prêmio Tony. Depois disso, dedicou-se à direção de óperas como La Bohème, Medeia e Gloriana, em produções para a TV. Em 2007, com uma leitura do texto Três Mulheres, da poeta Silvia Plath, obtém ainda mais visibilidade e respeito. No ano seguinte transpõe para a tela de cinema o musical que lhe dera relevância no mundo do entretenimento. Convida para o papel principal, Meryl Streep, que o aceita. E foi nas filmagens de Mamma Mia que ambas começaram a pensar num filme sobre Margareth Thatcher, impressionadas que ficaram com uma reportagem que falava da doença da ex- Dama de Ferro. As filmagens desta obra, que deu a Meryl mais um Oscar em sua carreira de atriz premiada, começaram em maio de 2010 e terminaram no final de 2011.

O jornal britânico Independent listou Phyllida Lloyd no rol das 100 pessoas mais importantes do mundo gay.

SERVIÇO
Título: A Dama de Ferro
Diretora: Pyllida Lloyd
Elenco: Meryl Streep, Jim Broadbent, Richard E. Grant, Anthony Head
Gênero: Biografia e drama
Ano: 2011
País de origem: Reino Unido

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