Gato borralheiro

Por: Heloísa Bittar Gimenes

Havia em Franca um moço muito bonito, com um belo par de olhos azuis. Pobre, trabalhava como pedreiro e pintor de parede. Cidadão comum que precisava sobreviver com o sacrifício de seu suor, já que a nobreza não lhe dera direito de a ela pertencer. Porém, tal fato não o entristecia, pelo contrário, conseguia fazer da adversidade fomento para sua criatividade e alegria.

Naquela época os bailes na A.E.C eram glamourosos e muito esperados. Nestes dias, chegado o final de expediente, lá ia nosso “gato borralheiro” para casa preparar-se para viver o seu “outro” lado, não tão miserável assim. Sem fadas para transformá-lo, tomava um belo banho para retirar todo e qualquer vestígio de sua profissão, arrumava os cabelos cuidadosamente com o “Trim”, se perfumava com uma loção pós-barba reservada somente para estas ocasiões e com o seu único terno de linho aberto dos lados, estava pronto! Um novo homem aparecia.

Elegia “a dedo” moças bonitas, bem cuidadas e de outras cidades para lhe darem o prazer da dança, pois era imprescindível manter-se no anonimato para que suas histórias e seus “personagens” fossem tidos como verdadeiros.

Saber dançar como ele, poucos; lencinho na mão, postura impecável, rostinho quase colado, valsava graciosamente pelo salão. Entre sussurros trocados ao pé do ouvido, donzelas curiosas perguntavam: “De onde você é?” “O que você faz?”,às quais ele respondia de acordo com a criatividade do momento, sempre satisfazendo as expectativas das moças de encontrar ali um belo príncipe.

Certa vez, fora contratado para trabalhar na reforma de uma relojoaria bastante chique e conceituada na cidade. Naquele final de semana haveria um baile com a Orquestra “Laércio da Franca”. Ansiosamente esperou chegar o evento para cumprir minuciosamente seu ritual e ser transformar em “príncipe encantado”.

Flerte no ar, uma dança aqui, outra ali e para cada valsante ele interpretava um personagem; ora era estudante de direito, ora farmacêutico, ora fazendeiro. Naquela noite, já tinha usado boa parte do seu repertório de “profissões” quando encontrou uma jovem encantadora. Como era de se esperar, no meio da dança a pergunta: “O que você faz?” Neste momento seu trabalho na relojoaria automaticamente lhe veio à cabeça e sem nenhum constrangimento respondeu convicto: “Sou o dono da relojoaria tal”.

Como na história da Gata Borralheira, depois do grande baile vem a labuta do dia-a-dia, e sem magias chegou a segunda-feira. O Gato, agora “borralheiro”, tinha que conformar-se em derrubar paredes e reformar a fachada da relojoaria. A carriola, sua “carruagem”, o ajudava no leva e traz dos materiais pesados da reforma. Empurrando-a pela calçada encontra a jovem do baile, que procurava seu “príncipe”. Confusa e intrigada ela pergunta: “O que você está fazendo com essa carriola?” Apavorado ante a possibilidade de ser desmascarado, olha para o relógio da Matriz que fazia “pano de fundo” para aquela cena e rapidamente responde:

– Estou indo buscar o relógio da Igreja para consertá-lo.

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