Aventuras de Ronanzinho

Por: Luiz Cruz de Oliveira

Era uma vez um lugar chamado Corgo da Tuia, encravado num ermo da Fazenda Limeira, por sua vez escondida nos confins do noroeste das Minas Gerais.

Era uma vez umas dez famílias que moravam naquele fim de mundo, cada qual com sua penca de filhos, todos esquecidos das autoridades encasteladas na capital, localizada do outro lado do fim do mundo.

Era uma vez três crianças que integravam as estatísticas dos habitantes do Corgo da Tuia. A exemplo de todas as outras, viviam com as barrigas intumescidas e as roupas e os pés encardidos da terra roxa do lugar. De longe, semelhavam tatus enormes. De tanto ouvir relatos que sua imaginação tornava encantados, começaram a infernizar os pais: queriam porque queriam conhecer a maravilhosa cidade de São Tomás de Aquino.

O argumento de que, na cidade, tudo era comprado, tudo era caro, de que não havia dinheiro, foi contestado pelo compromisso assumido na hora: catariam café durante os dois meses de colheita. Os pais venderiam o produto, dariam alguns níqueis só para eles chuparem os tais de picolé, os doces da venda.

Era uma vez três moleques que tiveram permissão para conhecer a cidade e ficaram três noites sem dormir, sonhando acordados com o reino maravilhoso que lhes chegava através das aventuras gabolas dos irmãos mais velhos que já haviam merecido o privilégio.

Era uma vez três crianças que andavam nas nuvens: o Ronanzinho da Dona Carolina, o Ipezinho Roxo da Dona Maria e o Jesuizinho da Benedita Cachimbuda.

As mães fizeram roupas novas para os filhos. Capricharam, não queriam que suas crias parecessem jecas diante dos moleques da cidade que ostentavam bonitos uniformes do grupo escolar.

A mãe de Ronanzinho, muito prendada, fez uma calça novinha para o filho. Sua arte não foi, no entanto, suficiente para ocultar a palavra MANÁ, em letras garrafais, na bunda do filho. Costurara a roupa, utilizando sacaria vazia do famoso adubo da época, o qual ostentava, até em porteiras, a garantia de que com Maná, adubando dá.O pai lhe mandara fazer um par de botinas, a mãe lhe ensinara a passar sebo de galo no calçado para ele chiar bonito.

Uma sobra do vento de agosto ainda balançava galhos às sete horas da manhã fria de domingo quando chegaram ao ponto o senhor Astrogildo e três meninos, calçados, vestidos com roupas limpas, cabelos penteados, com os corações aquecidos de entusiasmo. O caminhão de leite demorou quase uma hora para chegar. O chofer, o Luiz do Geraldo Magela explicou:

- Tinha de furar um pneu logo no domingo... É muito azar...

O pai do Ronanzinho quis consolar.

- Acontece, Luizinho... Acontece. Faz um favor pra mim, deixa os meninos lá na Rua de Baixo, explica pra eles qual é a casa da mãe da Dita Cachimbuda. Os meninos vão dormir lá, na vó do Jesuizinho.

Três horas depois de o caminhão parar em uma infinidade de porteiras para descarregar latão vazio, pegar latão cheio de leite, os meninos avistaram as primeiras casas da cidade. Logo desembarcaram, chegaram à casa da avó do Jesuizinho.

A mulher fez festa, abraçou os seis olhos arregalados e famintos das novidades. Mas logo o seu bom senso acordou.

-Virge, vocês devem estar com fome. Almoço não tem mais não, mas tem muito pão. Vão lá na venda comprar mortandela. Fala que é pra botar na minha conta.

Os mosqueteiros não sabiam onde ficava a venda, a mulher explicou.

- Sobe aquela rua da ladeira e vocês vão chegar na praça. Hoje é domingo, vocês vão ver uma casa cheia de gente conversando à toa. É lá que é a venda. Se quiser, pode comprar balinha e mandar botar na conta.

Os meninos subiram a rua muito inclinada, andaram uns cinco minutos desembocaram na praça.

Por azar, do lado em que chegaram, a primeira casa cheia de gente que viram foi a igrejinha da cidade. Não houve titubeios. Entraram apressados pela fome que, de fato, era grande, haja vista que, na região, todo mundo almoçava por volta de nove horas. Era o costume.

Entraram os três, as botinas do Ronanzinho chiando alto, chamando a atenção.

Por azar, entraram na igrejinha no exato momento em que o padre comentava a homilia e, dirigindo-se ao público, perguntava:

- O que Jesus veio fazer aqui?

Ronanzinho sabia lá o que era modéstia, o que era timidez? Ao contrário, mantinha sempre uma resposta na ponta da língua, fosse para o que fosse. Não se inibiu naquelas terras tão estrangeiras para ele e para seus dois amigos. Respondeu na hora.

- Comprar meio quilo de mortandela.

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