Conversas com o vento

Por: Maria Luiza Salomão

O VENTO me chamou para uma conversa, no meio da noite. Tem gente que tem medo da sua voz, acha que é assombração. Ele viaja muito, em solitárias Noites e frenéticos Dias. Deixa despencar tantas coisas, depois de voar com elas algum tempo e por algumas léguas.

O vento brinca de trenzinho com as nuvens o tempo todo. As suas conversas com as árvores, que eu sempre reparo com gosto, guardam sabor de mistério nas folhas verdes, nas copas cerradas. Sinto inveja da alegria do bailado que cria com os passarinhos, nos céus. Ele se preocupa com o descuido dos papéis soltos, que, ele, sem culpa, carrega vida afora, sem ter para quem ler. Pensei que achasse graça, mas ele não tem culpa, se sua natureza é revolucionária e anti-imobilismo.

O vento não se cansa. Varre os desertos, levanta a poeira do que resta estático, desinfeta os ares dos fétidos pruridos, ele corre continentes, espalhando sementes e mudando paisagens. Ele não é Um, mas muitos. Voa em ondas e constrói várias correntes através de montanhas, das áreas costeiras, em brisas, zéfiros, ciclones, redemoinhos, tornados, tufões. Sabe soprar cortina de musselina bem de leve, como amante cuidadoso. Mas arranca raízes das árvores e entorta as palmeiras. Sabemos por onde passou, como se fosse um ditador furioso, ao ver as árvores da Patagônia curvadas apontando o Norte, em coreografada mesura.

Não sabe o que é parada, sua alma é aflita e brincalhona. Mas não tive, esta noite, uma conversa ao vento. Embora invisível, como muitas das coisas invisíveis que fazem parte da minha vida, o Vento é meu vital companheiro. Mesmo quando desarranja a minha morada, ou espalha pó em tudo, ou leva embora o que gostaria de guardar. O vento me ensina que nada fica quieto por muito tempo. Há voz, pernas e asas naquilo que não se vê e que não se aprisiona em nenhuma caixa.

O Vento é o meu coreógrafo favorito, embora implacável e sem perdão. Seus passos de dança não se repetem nunca, não há imitação possível, não há ensaios, o instante é um e eterno. A disciplina é de vida ou morte: não devo me prender a nada, nem acreditar em segurança absoluta. Nada de muros concretos ou nervos de aço, cofres invioláveis, senhas indefectíveis. Com sua ação inteiramente imprevista ou eu me dobro, ou eu me quebro! No vento sou bambu, jamais carvalho. Antes as sementes que as raízes, quando me deixo levar pelas suas intocáveis e sábias asas.

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