Cigarrinho caipira

Por: Everton de Paula

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Esta eu fiquei sabendo num curso de comunicação empresarial na cidade de Sertãozinho: há uma peculiaridade em Sales de Oliveira, na região de Ribeirão Preto. Lá, a grande maioria dos plantadores de milho pouco se preocupa com o destino do grão colhido; o que eles querem é assegurar a boa qualidade da palha do milho, usada na confecção do mais forte tipo de cigarro existente o de fumo de corda, ainda de alto consumo na zona rural e em cidades de predominância agrícola

Eu mesmo, que durante alguns anos de minha juventude emprestei meu pulmão à peçonhenta fumaça do tabaco, lá uma vez ou outra enfrentei cigarrinhos de palha, ou de fabricação caseira ou da marca Pachola, os mais indicados para espantar mosquitos nas pescarias. Acabei, depois de algumas tentativas frustradas e pesados sacrifícios, desvencilhando-me da dependência.

Hoje, nem sei que saudade besta foi essa que me bateu aqui dentro, saudade desse tempo de fumante, quero mais é falar da verdadeira arte em manusear, preparar um bom cigarrinho caipira, ou cigarro de palha, ou ainda cigarro de fumo de corda.

A operação tem algo inexplicável de filosófico, de exercício de paciência.

A palha, conseguida às vezes ainda na forma bruta de envoltório de espigas, era selecionada por critérios muito subjetivos, que envolviam espessura, textura, cor e num sei mais quê. Quando bem seca, amarelecida, apará-la com tesoura na medida certa, alisá-la e molhá-la até atingir a quase consistência do papel. Demorava para cada cigarro em preparação um mínimo quinze minutos, mas podia chegar a muito mais, dependendo da animação da conversa concomitante travada com algum amigo chegado. Essa preparação se dava em momentos de descanso, apoiado no umbral da porta de casa, nas colônias das grandes fazendas, ou de cócoras, o caboclo assentado sobre um dos calcanhares; ou ainda nas vendas, barbearias e até mesmo nas esquinas das cidadezinhas do interior. Não se preparava o cigarrinho, por exemplo, em estado de alerta, de atenção, de trabalho ou outra função. O sossego, o ócio tornava-se companhia inseparável da arte de picar o fumo e enrolá-lo na palha seca de milho.

O fumo era comprado nas vendas ou de comerciantes que o adquiriam no Mercado Central de São Paulo, ou ainda em bibocas inexplicáveis do interior de Minas e paulista. Vinha em pequenas quantidades para não mofar, ressecar ou desandar. Tinha também características próprias jamais percebidas por leigos. Alguém ainda sabe pela grossura, cheiro e cor da fumaça, distinguir um tietê, um rio das pedras, um mineiro, um gaúcho, um goiano ou um reles macaio? As discussões travadas em torno das virtudes e defeitos de uns e de outros eram por vezes tão acaloradas quanto as que hoje dividem artificiosamente os admiradores desta ou daquela marca de cerveja, desta ou daquela cachaça...

A última vez que ouvi uma dessas discussões foi na Praça Barão (e poderia ser em outro lugar?), e o último pedaço de fumo de corda que vi foi no Aparecido. O cheiro era característico, mas não lhe soube distinguir a marca. Estava bem ao lado dos coadores de pano para café.

Voltemos à preparação do cigarrinho caipira.

Picava-se com o máximo cuidado o fumo com o canivete apropriado. Era colocado no côncavo da mão esquerda (se o usuário não fosse canhoto). De vez em quando, interrompia-se o corte do fumo e o material já picado era como que massageado com as duas mãos, para ficar bem solto. Quando estivesse no ponto, era cuidadosamente espalhado por toda a extensão de um sulco da palha escolhida. Tinha início, então, a última e delicada etapa de se enrolar a palha, sem se deixar o fumo escapar por nenhum dos dois extremos do sulco. (Quantas vezes mãos inexperientes derramaram tudo!) Nessa fase era fundamental passar-se a língua por toda a extensão da palha ainda não enrolada, para ela ficar maleável e garantir dobradura em seus dois extremos. E assim, depois de um cerimonial demoradíssimo, estava pronto o cigarrinho tão aguardado, que podia ainda receber um amarrilho também de palha, por via das dúvidas.

Um bom cigarro daqueles tinha por obrigação durar umas duas horas e ser reaceso ao menos quatro, cinco vezes. Daí a preferência pelos isqueiros Do tipo binga, ou seja, um depósito de combustível (geralmente querosene ou gasolina), um cordão que se encharcava e se incendiava no pavio quando se produzia a centelha por causa do atrito de um tipo de mó com a chamada pedra de isqueiro. Complicado e delicioso momento. O princípio de funcionamento era o mesmo desses isqueiros que hoje se compram a ínfimo preço em qualquer lugar.

Não vi mais esta cena. Terei me tornado urbano demais ou mudaram os tempos e costumes?

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