História e literatura em Respiração Artificial

Por: Sônia Machiavelli

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É bom que logo de início se avise aos que buscam apenas entretenimento: não pertence a este gênero o mais importante livro de Ricardo Piglia, Respiração Artificial, considerado pelos críticos um dos dez melhores romances da história da literatura argentina. É de leitura difícil, do tipo cerebral, a exigir constante atenção, pois narrado por várias vozes em tempos distintos. Quando começa? O narrador responde ao se inquirir no início do relato: “Dá uma história? Se dá, começa há três anos”. Fica claro para o leitor a datação dos fatos aos quais terá acesso: a partir de 1976, quando os militares tomaram o poder na Argentina, instauraram uma ditadura que duraria sete anos e resultaria num saldo de desaparecidos e mortos cujo número nunca encontrou exatidão. Uns falam em nove, outros em trinta mil. O ano, entretanto, é apenas ponto de partida para chegar a outros fatos retidos no passado recente ou distante.

Vou tentar resumir o enredo, estabelecido sobre carpintaria sofisticada a convidar constantemente exercícios cartesianos. O jovem escritor Emílio Renzi aceita encontrar o historiador Marcello Maggi, a quem não conhece pessoalmente, embora este tenha sido casado com sua tia. Maggi, auto - exilado em Bogotá, trabalha num projeto biográfico que tem por objetivo recontar a trajetória de Henrique Ossorio, avô de sua ex-mulher e homem próximo do presidente Rosas (1793-1877), ditador que reprimiu com violência movimentos contrários à sua política centralizadora. Há dúvidas sobre o papel de Ossorio, se teria sido o homem de confiança de Rosas ou apenas mais um traidor. Em busca da verdade, o historiador convence o escritor a localizar os papéis que podem elucidar lances históricos mal interpretados. Encerra-se aí a primeira parte do livro intitulada Se eu mesmo fosse o inverno sombrio, nome de um quadro de Franz Hals.

Seduzido pelo propósito deste homem obstinado, que se casou apenas para obter os papéis guardados pelo sogro, e depois abandonou a mulher, Renzi vai ao encontro de Maggi. Nesta jornada, que começa abrindo a segunda parte do livro chamada Descartes, o escritor conhece o polonês Tardewski, professor de filosofia numa escola pública de ensino médio no interior da Argentina. Enquanto aguardam a chegada de Maggi, conversam sobre música, filosofia, e principalmente literatura. De Joyce a Kafka, passando por Gertrude Stein e Valéry, aprofundando-se em Macedónio e Borges, até desconstruir Sarmiento, os dois personagens registram seus pontos de vista com frases irretocáveis, das quais uma permanece antológica: “O poeta é a memória da língua”.

Na sua camada mais superficial, o relato gira em torno dos papéis de Ossorio, conjunto de cartas reunidas e guardadas a sete chaves pela poderosa família da qual fazem parte Marcelo Maggi e Emílio Renzi. Este último, é importante lembrar, funciona como alter ego do escritor e reaparece em outros romances. Piglia, que batiza a criatura com seus segundos nome (Emílio) e sobrenome (Renzi), coloca sobre seus ombros a responsabilidade de ajudar Maggi a desvelar a verdadeira história de seu país, aquela que contradita a oficial. Mas nada é evidente, transparente ou óbvio. Até porque surge em determinado momento um certo Arocena, espécie de censor paranoico que imagina ver códigos nas cartas que são, enfim, oferecidas à leitura dos personagens e dos leitores.

Isso é o que se vai compreendendo aos poucos, pois o romance se constrói com a soma de digressões encaixadas em imensos blocos que semelham parênteses. Como elas se misturam e se confundem, quando não se devoram umas às outras em processo metalinguístico, o conceito de narrativa tradicional, de história que evolui na linearidade, deixa de existir. O que se apreende dos fragmentos são camadas de sentido que no final ganham significado maior. Uma leitura possível estaria centrada no estabelecimento de duas fundações: a da nação argentina, com Flores (1793-1877) e a da literatura argentina, com Sarmiento (1811-1888). Facundo, romance de Sarmiento, citado pelos personagens de Respiração Artificial, é o primeiro do gênero naquele país e tem Flores como inspiração. Outra interpretação repousaria na tentativa frustrada de apreender toda a verdade histórica, o que já é constatado de antemão por um dos narradores: “Releio meus papéis do passado para escrever meu romance do futuro. Nada entre passado e futuro: este prsente (este vazio, esta terra incógnita) também é utopia”.


INQUIETO E FECUNDO

Ricardo Piglia

Ricardo Piglia nasceu em 1940 em Adrogué, província de Buenos Aires, onde viveu até os dezesseis anos, quando acompanhou a família que se transferiu para Mar del Plata. Esta mudança teve para ele significado importante: foi nesta cidade que começou a escrever um diário onde aos fatos do cotidiano mesclava fortes doses de imaginação. Nascia ali o ficcionista. Em 1960 passou a cursar história na Universidad Nacional de la Plata. Três anos depois tornava -se um de seus professores. Como secretário de redação da revista Liberación, de orientação esquerdista, inicia sua colaboração às principais revistas publicadas no período na América do Sul. Passa a trabalhar na editora Jorge Alvarez, dirigindo a coleção Clássicos de Hoje. Escreve artigos sobre história e literatura para diversas publicações europeias e norte-americanas. Convidado pela Universidade de Princeton, EUA, desde 1990 ensina ali literatura.

É autor de contos (A Invasão e ome Falso); romances (Cidade ausente, Dinheiro queimado), e ensaios (Formas breves, O último leitor). Confesso admirador de Jorge Luís Borges, tem muitos estudos sobre este escritor que os argentinos, com justa razão, idolatram. Fez algumas incursões na dramaturgia, escrevendo o roteiro dos filmes Coração Iluminado, dirigido por Hector Babenco; La sonambula, do diretor Fernando Spiner; El astillero, de Juan Carlo Onettti. Em 2005 Piglia recebeu o Prêmio Ibero-americano de Letras José Donoso.

Serviço
Título: Respiração Artificial
Autor: Ricardo Piglia
Tradutor: Heloísa Jahn
Páginas: 200
Preço: R$20

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