Virose

Por: Jane Mahalem do Amaral

Fiquei doente essa semana. Nada grave, mas muito desconfortável. Acho que foi uma virose, uma gripe embutida. Muita dor no corpo, forte dor de cabeça , estado febril e a energia lá embaixo. Foram três dias de cama e, segundo o médico, nada a fazer a não ser tomar muito líquido, alimentar e repousar. É preciso esperar que o ciclo do vírus se feche. E a gente fica imprestável. Parece uma viagem de trem onde todos os vagões continuam em plena atividade e só o nosso parou. Não há coragem para ler, pois os olhos secam e a cabeça dói mais. Televisão é muito barulhenta. Ficar deitada é bom, mas a dor no corpo aumenta quando a gente se levanta. O andar fica lento, os olhos perdem o brilho e o espelho nos diz que envelhecemos três anos, em três dias.

Sem forças para fazer qualquer coisa, o jeito foi ficar um pouco no Facebook para que o tempo passasse. Então, aproveitando o computador, fui pesquisar um pouco sobre virose. O que descobri é que as viroses são doenças recorrentes que acontecem principalmente no inverno por causa das baixas temperaturas e das mudanças repentinas. Como o próprio nome sugere são originadas pelos vírus que estão em constante mutação. Dizem que nunca se pega a mesma gripe duas vezes. Isso mostra que até mesmo a mais simples doença passa por alterações na sua condição de existência. E, justamente por estarem em constante mutação, não existe uma “cura”. Então, dizem os especialistas, que a maneira de tratar doenças causadas por vírus é a prevenção. Isto só pode acontecer se conseguimos manter um estilo de vida saudável, com boa alimentação, sono adequado e exercícios físicos. Ainda assim, sempre estaremos vulneráveis a um novo tipo de vírus que surja “no mercado”.

Será que nossa vida, a passagem que fazemos nesse planeta estaria também marcada com essa vulnerabilidade? Com certeza, sim. Estamos sempre em mutação e nada acontece duas vezes, da mesma maneira. Já dizia Heráclito, na Grécia Antiga, que os seres não têm estabilidade alguma, estão em constante movimento. Dizia ele que “um homem não toma banho duas vezes no mesmo rio porque nem o homem nem o rio serão os mesmos.” Assim vivemos os bons momentos e aqueles difíceis parecidos com uma virose da alma. A energia acaba, achamos que não aguentaremos mais lutar contra a corrente, sentimos nosso coração doer. Ficamos entregues, nosso espírito fica “de cama”, sem forças. Pensamos que é o fim. Então o ciclo virótico da dor começa a enfraquecer. O vagão do trem recomeça a rodar nos trilhos e começamos a perceber um novo momento. Os olhos voltam a brilhar e passam a enxergar novas cores. Cores ainda não vistas, pois acabaram de ser descobertas. Há um ressurgir.

O que fica depois de ter vivido uma virose?

A certeza de que nossa única forma de estar no mundo é saber entregar. Abrir mão do controle. Iludidos estamos quando acreditamos que podemos decidir tudo. Aceitar que certas situações não poderão ser modificadas, mesmo que queiramos muito. É preciso ficar “de cama” e esperar que o ciclo se feche. Esperar que o vírus morra. Sabemos que ele também renascerá, em nova forma e tentará nos pegar fantasiado com outra roupa, pois certamente outra mudança repentina no tempo trará, novamente, temperaturas muito baixas. Mas já não seremos os mesmos porque também nós renascemos. A luta será outra. Um novo desafio. Sempre.

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