O tempo do amor

Por: Maria Rita Liporoni Toledo

A pracinha, em frente à igreja matriz daquela cidade de interior, era pequena para tantas juras de amor daqueles jovens enamorados. Era o ano de 1950, os costumes eram outros e as moças encontravam-se com seus namorados, às escondidas, pois seus pais eram extremamente severos e não permitiam que elas sequer conversassem com rapazes.

Dorinha era linda, fartos cabelos, rosto suave. Olhos brilhantes, sorriso tímido numa boca sensual. Alta, esbelta, bem feita de corpo, provocava sussurros entre os jovens, com seu uniforme de normalista, quando saía da escola. Não olhava para os lados, pois seu coração já tinha dono. Era, nos encontros na pracinha, que ela vivia seus momentos mais felizes. No entanto, este enlevo de amor termina aqui. Seu pai escolheu o marido para ela, de uma distante cidade, de família conhecida e ela casou-se. Foi viver seu destino, constituiu família, foi feliz.

Aldo, seu primeiro amor , mudou-se para a capital e lá fez sua vida ,com mulher e filhos. Nunca esqueceu Dorinha e quando enviuvou, procurou-a, na pequena cidade onde ambos tinham familiares. Só ouviu estas palavras: está casada. Muitos anos se passaram e ele, sempre, pedia a mesma pessoa notícias sobre ela.

Quis o destino que ela, também, ficasse viúva e quando Aldo voltou à cidade, ao fazer a mesma pergunta, recebeu a resposta que esperava. Seu coração tremeu. A ansiedade o dominava, pois não sabia o que poderia acontecer. Dorinha nunca soube desta insistência dele, pois a pessoa não falava para ela. Somente quando estava livre é que foi informada. Ele tomou conhecimento do seu endereço e, por telefone, convidou-a para tomar um café no shopping, em sua cidade. Foi o suficiente para que cinquenta anos de separação fossem transpassados e eles voltassem no tempo, para o momento exato quando suas vidas se separaram.

O tempo, inexorável, deixou muitas marcas em ambos, mas quando ela entrou na igreja sua beleza natural embeveceu a todos.

Os traços delicados expressavam serenidade. Seus cabelos prateados dispensavam qualquer adorno, apenas um pente arredondado os prendia ao alto da cabeça. O vestido claro, reto, realçava seu talhe fino. Seus passos firmes prenunciavam que haveria muita vida pela frente.

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