Com Paixão

Por: Eny Miranda

Entro no apartamento e me dirijo à varanda. Deixo que meus olhos passeiem, aquém e além da linha do horizonte. Situado em região elevada, o prédio permite que a cidade se abra no espaço em cores, durante o dia, e em luzes, durante a noite. Mas não é só a cidade. Há algo familiar -e talvez tenha sido este, em grande parte, o motivo da escolha daquele ponto, para a construção do ninho -algo de muito especial, logo ali, à frente e abaixo, que o coração deseja e os olhos buscam.

Em dia longínquo de ano remoto, mãos frutuosas - dessas que contam sua história sem verbo nem verso, usando apenas a linguagem concreta dos signos telúricos - abriram cuidadosas, no corpo da terra, a intervalos regulares e em linha contínua, chagas mais ou menos profundas, porém benignas, margeando um caminho de chão batido, e nelas foram depositando, quem sabe, sementes, quem sabe, pequenas mudas verdes, filhas da África ou de ilhas do Índico, que, aos cuidados desse escultor fabuloso chamado tempo, em ateliê especial, onde a madeira é trabalhada desde as células, se transformariam em obras de arte quase simbolista, em peças oníricas, ainda que naturais; robustas esculturas vivas; os troncos, à guisa de colunas, sustendo, cada um, uma ampla, verde copa, a explodir, nos verões e primaveras, não em vermelho, como as buganvílias de Drummond, mas em coral da mais perfeita e luminosa estirpe: os flamboyants (os flamejantes), a ladearem um especial caminho - ponto de fuga do olhar e de encontro da alma.

Hoje, chego à noite. Lá está a cidade, aberta em luzes. Aqui, abaixo e à frente, só a sombra espessa. É a luz do sol, na manhã seguinte, que me trará a dolorosa notícia, a triste visão dos grossos troncos, arrancados e feitos em enormes pedaços; dos galhos secos, inermes, espalhados pelo chão; do caminho, árido, nu.

Antes, como Cecília Meireles nas pedras da Via Appia, eu não via, naquela via, árvores, apenas, “mas as próprias mãos que [ali] as colocaram, o suor das frontes”... Hoje, como Cecília, não vejo ruínas, apenas, “mas os mortos que [ali ficaram] guardados, com suas coragens e seus medos da vida e da morte”. Meu coração viaja entre cenários cinza, e encontra a imagem de Bruges - a morta, nas páginas de Georges Rodenbach. Depois, de um salto, chega a uma certa campa, no Père Lachaise, em Paris, onde o mesmo Rodenbach, em metáfora de bronze, rasga a terra com seu braço erguido e traz o tronco à luz.

Se de amor, como Cecília, antes eu envolvia aquela brisa, tangida pelas folhas, de tristeza, hoje, envolvo aquela poeira, tangida pela ingratidão. Meus olhos, perdidos, buscam um sinal, como o da campa de Rodenbach, no Père Lachaise.

Eis que, num ponto esquecido das mãos predadoras, pequeno braço verde se eleva, ergue-se da terra. “Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego. [...] Façam completo silêncio”. Um fio de amor e de esperança, em metáfora viva, rasga, mais uma vez, a areia e o barro, e me fala o que o verbo não é capaz de dizer, mas o coração pode adivinhar.

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