Pesadelo

Por: Luiz Cruz de Oliveira

Eu cometera crime grave. Não sabia que horrores praticara, mas diziam-me que agravantes avolumavam o processo contra mim e que me preparasse para máximas penas.

No aguardo de severo castigo, sondava possíveis erros. Teria eu dirigido sem a devida habilitação? Teria soltado cachorro na praça central ou pilotado bicicleta no calçadão? Teria subornado porteiro de cinema, assistido a filme pornô? Teria falsificado bilhete, entrado no campo de futebol, assistido, sem pagar, ao jogo do time da Francana?

Espremia a cabeça dura, dava-me coques, mas o cérebro continuava adormecido. E eu não sabia, não soube, não sei que hediondo crime pesava sobre mim.

Sei que os juízes foram mais inflexíveis que árbitros mediando partida de futebol entre time de massa e equipe do interior.

Sei que a condenação chegou como pancada de cassetete e sem direito a recursos: eu estava obrigado a administrar, durante um ano, o Bar do Pardal.

Os freqüentadores de igrejas, os puros, os fregueses assíduos de shopping, de bares e restaurantes, jamais farão idéia do naipe daquele estabelecimento que me coube dirigir. Locais como aquele, quando aparecem, geralmente é na página policial, cujos leitores julgam ser ficção ou falta de assunto do jornal.

No meu pesadelo, antes de assumir meu posto, o proprietário do lugar, identificado pelos freqüentadores pelo codinome de Pardal, passarinho que virou praga na cidade, resolvera expandir o estoque de seu negócio. Para tanto, a sua intenção inicial fora transformar todo o patrimônio – garrafas, copos, mesas, cadeiras, até o balcãozinho em ações – e negociá-las na Bolsa de Valores Mobiliários. Valtinho Chulé, ex-bancário, profundo entendido em aplicações financeiras, mostrou-lhe, de pronto, a impossibilidade de concretização do intento.

– Onde você vai arranjar documento, Carteira de Identidade, CPF, Alvará de Funcionamento disso aqui?

– Precisa disso?

Orientado pelo amigo e cliente, procurou e descobriu um incauto, vendeu-lhe, a prazo, cinqüenta por cento do estabelecimento. Antônio Romeu, o sócio laçado, revelou preocupação ingênua.

– Não precisa passar documento, com testemunha?

– Documento pra quê? A gente é do tempo que fio de bigode valia mais que papel selado. Eu não uso bigode, mas todo mundo aqui fica de testemunha, não fica, gente?

A anuência saiu mole e etilicamente da boca do Maçã, do Firmino, dos gêmeos Tonho e Luisinho, do Capetinga, do Bengala, do Lagartixa, do Cegonha, da dupla Palito e Dê... Até o Valtinho Barbeiro e o Ronan, irmãos da vítima, deram seu aval.

Assim, fui trabalhar para dois patrões. Pardal parecia alegre, estava sempre cantarolando canção de Adoniran Barbosa:


João Saracura
Que é fiscal da Prefeitua
Foi um grande amigo, sim,
Arranjou tudo pra mim.


Tonho Romeu, por seu lado, vivia nervoso, reclamando que chegavam à sua casa, ao seu local de trabalho, contas de água, de luz, pessoas esquisitas, querendo receber conta de papel higiênico, de sabão, de palito, cobradores de todo tipo.

Percebi logo que minha tarefa não seria nada fácil, mas me dispus a trabalhar muito e a me manter em região neutra, longe dos sócios e de seus desacertos de santista e palmeirense.

– Qual escritório faz a contabilidade da empresa?

– Que empresa?

-Do bar, ora.

Para minha surpresa, não havia contador, não havia contabilidade, não havia qualquer livro registrando entradas, saídas, despesas ou pagamentos. A única coisa que existia ali era um Caderno dos Fiados, grosso, ensebado, a capa manchada de gordura. Examinei o caderno, fiquei espantado.

– Só o Ronan tem seis folhas anotadas, não há registro de quaisquer pagamentos...

– É, ele é o melhor freguês...

O diálogo acabou de chofre, porque não havia sonho, não existia pesadelo capaz de agüentar aquilo.

Acordei.

No outro dia, livre do pesadelo, mas não de preocupações, era cutucado todo o tempo por algumas dúvidas. Então, liguei para o amigo Ronan, pedi que me levasse ao Bar do Pardal.

– Quero ver de perto o que há de verdade em tudo quanto se fala daquele recanto.

Fomos.

Havia poucos fregueses naquele fim de tarde, pude conversar com o proprietário que, à medida que servia a freguesia, anotava as despesas num caderno grosso, parecido com o do meu pesadelo. A diferença estava em que o caderno real nem capa tinha.

– Estou vendo que você só vende fiado. Não toma prejuízo?

– É, tomo...

– Então...?

– Sabe, moço. Eu vivo de umas rendinhas, de uns aluguéis que eu tenho. Isso aqui eu mantenho mesmo é só pro gasto e pro gosto.

À noite, fiquei pensando que meus avós tinham razão: “mais vale um gosto que um carro de abóbora!”

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