Filho do vento

Por: Eny Miranda

180751

“Sempre há limites. Eu não conheço os meus”.
Usain Bolt, atleta jamaicano, campeão olímpico e mundial e detentor dos recordes mundiais nos 100 e 200 metros rasos e no revezamento 4 x 100 metros.


Tinha o hábito de perseguir estrelas. Deleite era passar boa parte da noite a observar o céu, a lenta trajetória dos astros no firmamento. Às vezes, o peso do sono traía-lhe a vigília, fechando-lhe temporariamente as janelas para o mundo presente; ao abri-las, assustava-se com o espaço percorrido pelos pontos brilhantes. Onde teria ido Vênus, àquela hora? Cuidadosamente, retomava sua busca: Sirius, Aldebaran, Prócion... Ah, as Plêiades! E Vênus, logo ali, ao sul, quase amanhecendo!

Vontade mesmo era de voar: deixar o corpo flutuar, fluir - filho do vento. Cada vez mais leve, empreender corrida ao encontro e ao caminho de seus astros.

Prometeu a si mesmo que ainda voaria: ‘Meu objetivo é me transformar em uma lenda’.

Então, flete o corpo de ébano e dele faz o arco. Dos braços retesados faz a seta, que aponta para o céu. No gesto, a meta: ele arqueiro, arco e flecha; noite e estrela. Ele Sagitário na Terra perseguindo o infinito. Na busca da perfeição, vontade se transforma em alvo.

Assim, alma e coração voláteis, a serviço de um sonho, e nervos e músculos sólidos e ágeis, a serviço de férrea vontade, vencem os limites da matéria, e o corpo, cada vez mais rápido, vence o espaço.

Se foi exatamente assim que tudo aconteceu, jamais saberei. Sei que a cada vez que vejo Usain Bolt submetendo tempo e espaço - silhueta de força e elegância a se desprender do solo em exercício de velocidade e leveza - e comemorando as vitórias - escultura de sonhos audaciosos e músculos precisos a se projetar mirando o céu - assim o imagino.

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