Justiça e justiçados

Por: Luiz Cruz de Oliveira

Obediente às recomendações médicas, permaneci recluso um dia inteiro. Divorciado há anos da ociosidade, busquei preencher vazios. Ouvi as denúncias de Chico Buarque e de Geraldo Vandré, ouvi lamentos de Moacir Franco, de Maísa, de Nelson Gonçalves. Saturado, desliguei o aparelho de som, liguei o televisor e, controle remoto na mão, fui atacando todos os canais. Minha preferência recaiu nos programas cômicos, que procurei em vão. A única coisa mais ou menos engraçada com que deparei foi noticiário sobre julgamento coletivo de políticos acusados de venda de votos e de outras canalhices. A análise dos processos e julgamento dos réus será feita pela suprema corte de justiça do país. Dentre os representantes do povo acusados, havia gente de todo naipe, de todas as categorias, de todos os lugares do país. O noticiário mostrou entrevista com vários deles.

Além da acusação, havia outra coisa em comum entre eles: todos alegavam praticamente a mesma coisa aos entrevistadores. Todos eram inocentes, todos estavam sendo injustiçados. Todos diziam estar sendo julgados pela mídia, todos estavam sendo publicamente condenados sem direito à prévia defesa.Todos ameaçavam revide com processos por calúnia, por injúria, por danos morais, por um milhão de razões.

Ouvi argumentos múltiplos, razões que me impressionaram. E tudo aquilo me trouxe à lembrança um amigo excepcional que perdi há anos. Chamava-se João Elísio de Carvalho.

O senhor João Elísio, ex-seminarista, era professor de Português, de Latim, de Francês e de Matemática. Foi gerente do Banco do Brasil e meu chefe naquela instituição. Foi ele quem me contou a seguinte fábula.

O rei resolveu fazer visita à masmorra. Acompanhado de cortejo, desceu escadas, percorreu corredores sombrios, iluminados apenas por archotes. Parava à porta das celas, interrogava os prisioneiros.

- Por que você está preso?

- Ah, majestade! Sou um pobre inocente, vítima de um terrível engano. Devo ter sido confundido com algum inimigo de Vossa Majestade, confundido com algum malfeitor. Mas acredite, senhor rei, sou um homem temente a Deus, jamais cometi um ilícito que seja em toda minha vida. Majestade, toda minha vida eu a tenho dedicado a trabalhar pelo povo e pelo meu próximo e pelo meu reino. Acredite, senhor rei, sou vítima da perseguição, sou vítima da inveja de algum inimigo...

Na cela seguinte, a ladainha se repetiu. Noutra cela, a mesma coisa. E assim foi: sua majestade ouviu queixas e reclamos de homens que juravam inocência. Quase ao final do corredor, aconteceu algo insólito.

- Diga-me, prisioneiro, por que está aqui?

- Porque roubei e matei, majestade foi a resposta pronta do homem que, através das grades, fitava respeitosamente sua majestade.

A reação imperial foi pronta e surpreendente.

- Guardas, soltem este culpado.

- Mas, majestade, este é um criminoso confesso.

- Soltem-no imediatamente. Não percebem que, se ele ficar aqui, ira perverter todos esses pobres inocentes que estão presos?

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