Os ipês de agosto

Por: Everton de Paula

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Não, não falarei sobre a beleza desses ipês floridos que adornam os bairros de nossa cidade, as alamedas, as esquinas em frente a casas assobradadas; que embelezam as estradas apesar de pastos ressequidos, pardos, tristes... Nem revelarei se minha preferência recai sobre os ipês amarelos, brancos ou roxos... Direi apenas o que eles evocam em minha alma que nem sei se encontra cansada ou entediada com as pequenas alegrias e as perdas sentidas que a vida nos apresenta.

Assim como os ipês florescem em agosto e permanecem coloridos por um tempo mínimo do ano, as alegrias nos tomam com pequenos fatos ou detalhes. Um mês de encanto florido e depois o resto do ano e a metade do próximo só galhos nus, tristes na galhada esquelética. Entretanto, quem passa e observa atentamente aqueles galhos retorcidos e murchos, sabe que com certeza a florada virá exuberante, tenha ou não chuva.

É como a vida num determinado recorte de seu tempo. Como o meu de agora. Meu ipê de agosto floresceu em novembro último com o nascimento de meu primeiro neto. E graças a esse Deus de que tanto vocês falam, meu ipê de agosto floresce e seca com uma rapidez espantosa: nasce um ente querido, perco um amigo, fortalecem-me os cursos que ministro, vejo crianças com fome, minha esposa diz entrelinhas que me ama, há uma traição em cada esquina... E cada uma dessas coisas ocorre assim num minuto, num dia, lembrando o trotear claudicante do burrinho pedrês de Rosa no seu encantador tropica-cai-levanta-sai, mas sempre seguindo em diante, a frente, apesar das pedras agora de Drummond.

Os ipês de agosto me lembram as alegrias frágeis que me visitam; os mesmos ipês de dezembro ou janeiro, esquecidos no retrato cinza da memória são as dores de minha alma. Um mês de florada e o resto do tempo de secura.

Por que há de ser assim?

Somente aqueles que chegaram a um tempo da vida podem sentir o que sinto agora: estar no limiar dos sentimentos mais profundos que assomam os recantos da alma. Explico melhor: você olha para trás e não vê mais pai, tios, avós, às vezes um irmão, amigos... Dormem eternamente enquanto seus retratinhos estampam sepulturas caiadas. É amargo demais. Mas isto só ocorre se você olhar para trás. Olhe agora para frente e se depare com suas filhas amantíssimas sentadas na mesa principal da casa, reunidas agora em família, adultas ao lado de seus maridos, namorados, os netos, a esposa, a imensa e transbordante alegria dos queridos... E o ipê se mostra empanzinado de beleza!

Acho que este duplo sentimento deve durar até que nada reste. É quando penso naqueles e naquelas que viveram muito, mais do que queriam... E nesta longa jornada viram todos os seus queridos partirem, todas as suas esperanças caídas... Não há nada na retrospectiva além de lembranças; não há nada à frente, além da espera retratada em cada movimento do ponteiro dos segundos do relógio da fria parede da casa silenciosa, ou do asilo que recende a urina. O piso é frio que penetra nos ossos e vai encontrar abrigo na alma vencida.

E quando você, que ainda tem o futuro vivo na mesa de casa, vê o ipê florido, ame com o mais puro e o melhor dos seus sentimentos cada pedacinho daquela pequena árvore, acolha cada pétala, cada flor, aninhe cada colorido dos ipês de agosto.

Nunca despreze um ipê de agosto, porque ele pode representar o que de melhor acontece em nossas vidas. E quando as flores se forem, lá pra setembro ou outubro, firme-se na certeza do seu retorno no agosto que vem, que chegará.

Amo os ipês de agosto, não me importando se amarelos, brancos ou roxos. Amo os ipês de agosto porque neles eu vejo o brilho dos olhos de todos aqueles que eu amo, de todos aqueles que me amam, de todos aqueles que, junto comigo, formam a outra metade abençoada da vida!

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