Paixão juvenil

Por: Marina Garcia Garcia

Os idos anos 70, quantas lembranças! A expectativa da escola nova, Cede, para fazer o ginasial. Tínhamos saído da escola primária, a Barão, e a vida se abria em folhas. Uniforme novo: saia cinza, sapatos pretos, cinto vermelho, meias três quartos, além do uniforme da educação física: sai branca pregueada, camiseta canelada branca e um short ridículo bufante e vermelho, por baixo. Tudo era muito controlado e sentíamos orgulho danado de usar aquelas roupas. Davam status. Aquilo era um passaporte para uma nova fase. Os livros que comprávamos de segunda mão (com muito sacrifício na verdade), os cadernos em espiral, enfim, todo este aparato proporcionava credibilidade de moça.

Tudo pronto, aguardávamos com ansiedade o início das aulas. Vida nova.

Qual o quê! A realidade não era tão legal assim. Aquele desfile de professores de quem mal conhecíamos os nomes e despejavam um monte de conteúdo, mais pesquisas (eu que nunca saía de casa sem minha mãe... ).Tive que conhecer a UNESP, ter acesso ao acervo da biblioteca. Como procurar? Como chegar até lá? Dúvidas cruciantes de menina de 10 anos no ferido e referido ano. No recreio, então, formavam-se grupos de alunos conhecidos e os que eram mais tímidos, introvertidos, se isolavam pelos cantos, rezando para chegar logo a hora de bater o sinal e poder voltar para sala de aula.

Mas, na classe, havia alguém que exercia um grande fascínio sobre as garotas. Era lindo, charmoso, divertido e inteligente. Tinha uma namorada, nem tão bonita assim, mas invejada por todas.

Eu era só olhos e coração, nunca fui notada. Chorava por nem estar na lista das garotas legais. Quando vinha alguém conversar comigo, o que dizer? Tudo parecia tão bobo. O papo acabava assim que começava. Ele jamais veio... Eu era completamente invisível.

Mas a vida dá muitas voltas. E não é que eu o encontrei num barzinho da moda dias desses? Que coisa, não?! Não o reconheci. Alguém comentou alguma coisa sobre ele e aquela época. Felizmente, pra mim, o tempo foi também severo com ele. Já não arrebatou meu coração. Ri do amor ingênuo de menina: “Nossa, então era só isso!” Senti-me vingada!

Eu fui aquela que não foi, mas ele foi o quê? Embora tenha feito estrago em tantos corações, inclusive no meu...

Estamos empatados.

Quem não foi apaixonada por aqueles olhos expressivos e cabelos cacheados? Quem não foi apaixonada pelo Gato?

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